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segunda-feira, 24 de junho de 2013

Quem quiser, que saia! Bole-Bole vai virar Saramandaia!

Saramandaia estreia com manifestação e pedido de plebiscito. E não tinha nada combinado.

Algumas coincidências são intrigantes. No caso, assustadoras. O remake de Saramandaia estreou na tv Globo no momento em que o Brasil passa por um dos momentos mais turbulentos desde a chegada da democracia. O povo foi às ruas depois de anos de inércia. Em Saramandaia o povo – sobretudo os jovens, como hoje – foi às ruas pela mudança do nome da cidade Bole-Bole para Saramandaia. Munidos de celulares, tablets, Skype e até mesmo transmissões ao vivo. Sim, nos dois. A novela usa e abusa da tecnologia para integrar a população bolebolense. O limite entre realidade e ficção nunca foi tão posto à prova quanto neste capítulo de estreia.

A primeira versão foi ao ar em 1976. Dias Gomes, comunista, escreveu a novela em plena ditadura militar. Através de metáforas, incorporadas em personagens com características peculiares, driblou a censura. O discurso político era forte. Evidente que se não fosse essa onda de manifestações que se alastra pelo Brasil hoje, os fatos da novela passariam despercebidos. O autor do remake, Ricardo Linhares e toda a equipe devem estar soltando fogos.

Linhares escreve a novela “livremente inspirado” na obra anterior. Portanto, há a criação de novas tramas e personagens e a necessária adaptação para o momento político. Não faltaram referências ao mensalão, como quando Zico Rosado (o bastantemente corrupto vivido por José Mayer que bota formigas pelo nariz quando é contrariado) diz que deu “um dinheirinho” para os vereadores. Ele arremata: “não se pode confiar em político comprado. Palavra não vale mais nada!”. O traiçoento Zico vai além e critica: “Essa internet... Pena que não dá pra colocar uma mordaça nisso aí!”. Mas Mayer parece que mantém características de outros personagens. Tomara que isso se desfaça com o tempo.

E Zico Rosado faz parte de uma nova trama: na juventude, foi namorado de Vitoria Vilar (Lília Cabral, pela 67864ª vez parceira de Zé Mayer e uma das novas personagens. Ela literalmente se derrete de amor). As famílias Rosado e Vilar são rivais e o conflito está pronto. Ela volta a Bole-Bole (agora, Saramandaia) e os dois vão acertar contas. No amor e na política.

Todos os tipos estranhos foram mostrados. Dona Redonda (Vera Holtz) e sua fome interminável, Seu Encolheu (Matheus Nachtergaele) e sua previsão do tempo pelos ossos, Cazuza (Marcos Palmeira) que quando se emociona bota o coração pela boca, Marcina (Chanderlly Braz) que fica em brasa quando excitada, Candinha Rosado (Fernanda Montenero, sempre simples e brilhante), Tibério Vilar (Tarcísio Meira, pai de Vitoria Vilar e novamente pai de Lília Cabral, assim como em “A Favorita”) e, claro, João Gibão (Sergio Guizé) e suas asas escondidas.

As brigas entre famílias – capitaneadas por Tibério, que já criou raízes no chão e Candinha, que enxota galinhas imaginárias – soam velhas hoje, assim como algumas disputas políticas. O prefeito Lua Viana (Fernando Belo) faz o tipo "caxias" e defende a mudança de nome, ao contrário de Zico Rosado. Mas a adição de meios tecnológicos e novos personagens e tramas dão fôlego ao remake, assim como a tentativa de dialogar com os momentos recentes da política e vida no Brasil. O discurso do professor Aristóbulo (Gabriel Braga Nunes, que ainda vai virar lobisomem) falando qualquer coisa estranha e “estrogonófica” e o povo aplaudindo é a encarnação da demagogia dos nossos políticos. Zico Rosado diz: “Sai dos abstratos e entra nos concretismos!”.

A novela usa e abusa de neologismos, como já deu para perceber. Assim como nas chamadas, os personagens dão vazão a um sem fim de novas experssões: sujismo, desmiolenta, cervejação, hipocrisismo, merecedência, bastantemente, topetice, entre outros. Um fantastiquento vocabulário que apesar de engraçado, pode tornar-se maçante. Explico depois.

Apesar das cenas terem começado com a música “Pavão Mysteriozo”, de Ednardo, a abertura abdica da música original de 1976 pela primeira vez em um remake das 11. A animação elaborada que remete aos personagens contrasta com a precariedade da original (veja aqui: http://www.youtube.com/watch?v=sR7ul_2zkSY). Mas a música, tão encaixada com a novela, faz falta. “Saramandaia” leva o realismo fantástico tão toscamente feito em 1976 ao que se tem de mais moderno em efeitos especiais. Os takes aéreos da cidade são quase todos feitos em computador, já que a cidade reúne colina, duna, floresta, morros em um só lugar, o que naturalmente não existe. O primeiro capítulo mostrou “apenas” um coração saindo pela boca. Surreal de tão bem feito. A fotografia é viva, colorida, mas por vezes árida, amarelada, mas não há grandes inovações como planos diferenciados. É tudo muito convencional, o que destoa das recentes produções da emissora como "Avenida Brasil" e "Amor à Vida". Convencional demais para uma novela de caráter especial.

O texto é bom (às vezes infantil), mas Ricardo Linhares peca ao deixar os neologismos para todos os personagens, quando essas extravagâncias poderiam ser de um político demagogo como Zico Rosado. A “imponência estravagântica” se espalha e pode se perder, tornando-se chata e sem graça.

A novela chama o público pelos efeitos e não pela história. Não tem o mistério e o suspense de “O Astro” (2011) e nem a sensualidade de “Gabriela” (2012). “Saramandaia” aposta nos efeitos especiais dos esquisitos personagens para chamar o público que pode preferir ver os esquisitos personagens reais de “A Fazenda 6”. O primeiro capítulo deu 27 pontos de média segundo a prévia contra 6 de Record e SBT.

No entanto, Dias Gomes (que ganhou homenagem como o santo padroeiro da cidade) deve estar se revirando no túmulo.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

"Dona Xepa" estreia com 9 pontos e tranquiliza Record


A estreia de "Dona Xepa" na Record mostra que a emissora está no caminho certo – mas tem coisas que só o “estilo Record de fazer novelas” pode proporcionar.

A história da feirante que faz de tudo pelos filhos já teve três versões: a peça de teatro original de Pedro Bloch, um filme em 1959, a primeira versão da novela em 1977 na Globo (escrita por Gilberto Braga) e, agora, a quarta versão pela Record. Não é um remake da novela global e sim uma nova versão, inspirada na peça de teatro. A emissora não economizou nas propagandas (com uma divulgação impagável de Marcelo Rezende no policialesco Cidade Alerta:. http://www.youtube.com/watch?v=bnlyBK-0ta0). Depois do fiasco “Máscaras”, “Balacobaco” tinha a missão de fazer voltar os dois dígitos de média. Não conseguiu – terminou com uma média de 7 pontos. “Dona Xepa” tem essa dura missão de voltar pelo menos próximo aos 12 pontos de “Vidas em Jogo”.

Ângela Leal, além do nome da personagem-título, carrega a novela – e a feira – nas costas. a Dona Xepa garante boas risadas com um sotaque que parece feito para a atriz. Dá pena ver uma atriz como esta contracenando com atores tão fracos. Aliás, muitos dos que estão lá vieram da Rede Globo. E parece que desaprenderam tudo...

A produção, ainda que popular, não é popularesca como “Balacobaco”. A Record mantém a ousadia de deixar uma novela com os dois pés no humor num horário considerado tarde para este tipo de produção. O que é ótimo, é uma opção a mais para combater à "nova-velha" grade da Rede Globo no horário.

Ainda assim, “Dona Xepa” tem exageros típicos das novelas da emissora: trilhas sonoras e incidentais mal escolhidas ou mal colocadas em cenas aleatórias (quando Robertha Portella, interpretando Dafne, a mulher-fruta, toca a música "Mulher Brasileira": mais clichê, impossível), slow motion em sequências que seria totalmente dispensável (parece que é para ganhar tempo), atores carregando nos exageros (Luiza Thomé interpretando Meg Pantaleão está num tom muito acima e Márcio Kieling avacalha na canastrice), atores que saíram de “Malhação” (mas a “Malhação não saiu deles): Bia Montez, Giuseppe Oristânio e o próprio Márcio Kieling. Do núcleo principal, Thaís Fersoza (Rosália, a filha ambiciosa) se garante muito bem, ao contrário de um inexperiente Arthur Aguiar (o filho estudioso, mas que tem vergonha da mãe por ela ser feirante, assim como Rosália).

“Dona Xepa” é uma aposta da Record em novelas com número reduzido de capítulos, o que é uma surpresa vindo da emissora. Enquanto algumas se arrastam por mais de um ano até, esta tem a missão de fechar com 90 capítulos, aproximadamente. Mas o autor Gustavo Reiz já disse que, dependendo da audiência, pode ser “espichada”. Ivan Zettel, experiente diretor de tv, assina a direção geral da novela, que consegue se sair bem. Divertida, popular (mas não popularesca), bem feita (fotografia sem maiores elogios, é competente), “Dona Xepa” tem tudo para agradar um público que prefere um tipo mais leve de telenovela. É uma melhora em relação à “Balacobaco”, mas ainda não chega aos níveis de “Cidadão Brasileiro”, uma das melhores produções da Record – que Zettel dirigiu, aliás.

Torcer para que a emissora não brinque com o horário. A prova é que “Balacobaco” não sofreu desse mal e aumentou os números de audiência. "Dona Xepa" estreou com 9 pontos de média e 10 de pico, o que é um avanço. Mas 7 pontos de média geral (como "Balacobaco") ainda não é o bastante para uma emissora que se diz “tv de primeira”.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

"Amor à Vida" mostra São Paulo do jeito que ela é. E consegue


Enquanto “Salve Jorge” se arrastou por sete meses sem grandes reviravoltas, a estreia de “Amor à Vida” trouxe, em pouco mais de uma hora e meia, muito mais do que a turma de Gloria Perez.

O começo acima pode parecer exagerado, mas ficou próximo disso. A estreia de Walcyr Carrasco no horário das 9 começou muito bem. O primeiro capítulo mostrou-se ágil, bem dirigido, com trilha e fotografia voltando aos bons tempos de “Avenida Brasil” e abandonados em “Salve Jorge”. As características de Walcyr Carrasco estão lá: um vilão marcante (Félix – interpretado por Mateus Solano – já mostrou a que veio e muito me lembrou as vilanias e ironias de Cristina – Flávia Alessandra em “Alma Gêmea”, claro que cada um à sua época. Outros, mais saudosistas, dizem que Félix é uma versão de Carminha de “Avenida Brasil”. Não por acaso, Félix é bissexual e mostrou um arsenal de frases de efeito), uma história carregada no drama: Paloma (Paolla Oliveira) é inconsequente, sofredora, abandona a família, é rejeitada pela mãe, tem um irmão invejoso, tem um parto num local imundo, etc, etc, etc e um núcleo de humor em torno de uma família (como não lembrar das famílias de “Chocolate com Pimenta” e “O Cravo e a Rosa”?).

Destaco duas cenas de um capítulo longo: vagando por São Paulo, Ninho (que veio para o Brasil com a ajuda de Félix depois de ser preso por tráfico) e Paloma discutem em um bar, numa das melhores fotografias da novela. Ele vai embora e Paloma tem a filha que espera dele num banheiro imundo, num parto realizado com a ajuda de Márcia (Elisabeth Savalla). Aliás, Paloma escondeu da família que estava grávida, mesmo vivendo sob o mesmo teto. Um tanto fantasioso. No hospital San Magno, onde boa parte da trama vai se passar, a cena do parto e morte de Luana (Gabriela Duarte) foi emocionante, com trilha na medida e muito bem gravada. Além disso, as cenas em Machu Picchu no início da novela também foram bem tratadas, com o conflito se estabelecendo logo nos primeiros minutos: a mãe (Pilar, Suzana Vieira) rejeita a filha, o pai (César, Antonio Fagundes) apoia a filha e causa inveja em Félix, que quer tirá-la do caminho a todo custo e Edith (Bárbara Paz), a esposa complacente com Félix.


A fotografia de “Amor à Vida” é limpa, sem exageros, mas há o retorno de uma câmera na mão constante, ágil, nervosa. Esqueçam as grandes tomadas de paisagens e coisas convencionais. É uma fotografia moderna, com estilo (sim, com um pé nos filmes e seriados). A trilha, que vai desde a música “Maravida”, de Gonzaguinha interpretada toscamente por Daniel na abertura até Charlie Brown Jr, reflete uma São Paulo pouco vista antes na tv: do jeito que ela é. Junto à fotografia e direção de arte, a cidade é mostrada sem exageros ou caricaturas: ali estão os bares e botecos sujos, as prostitutas da Augusta, o centro vazio mas ao mesmo tempo belo, as luzes de neon nos bares... Nada de “cidade cinzenta” ou “contemporânea” e “urbana” (como visto em “Sangue Bom, a das 7). Em “Amor à Vida”, São Paulo se materializa na tela. Outro recurso interessante foi o uso de uma câmera acoplada a Juliano Cazarré quando o personagem Ninho está no aeroporto. O enquadramento permitiu captar todo o nervosismo do personagem.
Do elenco, Suzana Vieira e sua Pilar são mais do mesmo que a atriz já fez na tv: uma mulher rica e impiedosa – lembra a Branca de “Por Amor”. Mateus Solano (Félix) consegue provocar ódio (como quando abandona a filha de Paloma no lixo) e riso (ao filho, Jonatan: “Meu dia está lotado para criança! Se quiser, agenda!” ou à esposa: “Eu salguei a Santa Ceia, só pode ser!” ou à tia: “Tá chamando seu irmão de touro, vão achar que você é a vaca!” ou pior, quando chega no bar que Paloma teve a filha: “Brega!”). No mais, nada de mais. Antonio Fagundes, Malvino Salvador, Juliano Cazarré, Bárbara Paz e Paola Oliveira não comprometem, mas não se destacam. O primeiro capítulo ficou inteiramente focado nesse núcleo, com apenas uma cena da família de Bruno. Uma família grande e tipicamente paulistana: Eliane Giardini volta a viver uma matriarca (Ordália, que lembra um pouco a Muricy de “Avenida Brasil, mas bem mais branda), e o pai de Bruno, Fulvio Stefanini (Denizard), que carrega no sotaque paulista, meu!


Walcyr Carrasco ainda mantém características no seu texto que incomodam: às vezes são explicativos demais ou às vezes o recurso de “falar o pensamento” não se faz mais necessário, quando Bruno encontra a criança abandonada por Félix no lixo e exclana: “Deus me deu uma nova chance!”, forçando a barra. Mas a direção de Wolf Maya é competente, dinâmica: as passagens de tempo foram implícitas pelas cenas (quando mostrou Paloma grávida, ora experimentando roupas, ora fazendo ultrassom), a fotografia e a trilha são um grande acerto e a trama é verossímil numa história que não tem essa pretensão  Ao contrário de “Salve Jorge” que pedia uma trama realista (morro do Alemão e tráfico de pessoas), mas totalmente mal concebida.

“Amor à Vida” estreou com 35 pontos (não consolidados) e repete a estreia de “Salve Jorge”, mas ainda inferior a “Avenida Brasil” (37) e “Fina Estampa” (41). O nome pode remeter a qualquer novela tosca do Manoel Carlos. Mas Carrasco coloca todo o arsenal que consagrou suas novelas (só às 6, pois as das 7 foram bem fracas) e aliada à direção de Wolf Maya, “Amor à Vida” tem tudo para agradar. Menos a abertura, que apesar de contar com o desenhista americano Ryan Woodward (de “Os Vingadores”), é toscamente interpretada por Daniel, mesmo que tenha tudo a ver com o título (De amar, e amar e amar... Vida, vida, vida). 

sábado, 18 de maio de 2013

#VazaJorge

O fim de “Salve Jorge” foi coerente: incoerente do começo ao fim. Os erros – que de tantos, merecem um texto para cada um – sobrepujaram-se à história proposta por Gloria Perez. O “voo” que ela tanto pediu não causou nem um princípio de decolagem.

O último capítulo teve todos os desfechos possíveis e imagináveis, sempre calcados nos erros de produção, questionável direção musical e erros de direção. Algumas coisas foram, boas: o strip-tease de Cláudia Raia, mostrando porque ainda é uma das mais belas atrizes desse país, além de toda desenvoltura ganha em inúmeros musicais estrelados por ela. O desfecho de Wanda foi hilário: virou evangélica na cadeia – lembram-se que no começo da novela os evangélicos “boicotaram” a novela? E só.

O resto foi um festival de confirmações que se arrastavam há sete meses: Giovanna Antonelli e “Donaelô” foi a verdadeira protagonista, a Morena de Nanda Costa foi insuportável, assim como o Theo de Rodrigo Lombardi, e por aí vai. Ah, claro, não podemos esquecer Thammy Gretchen, “achada” numa reta final e Maria Vanúbia (Roberta Rodrigues), que não foi bagunça  anovela inteira. Talvez a única personagem coerente disso que se pode chamar de “novela”.

O telespectador brasileiro foi mal acostumado com “Avenida Brasil”. A qualidade superior de produção e fotografia (totalmente baseada em produções de seriados americanos), a qualidade do texto de João Emanuel Carneiro (ágil, preciso, mas com algumas falhas, é verdade), a qualidade da direção de atores (não havia “canastrões” como Lívia Marine de Cláudia Raia) e a qualidade (e pouca quantidade, ante os 80 de “Salve Jorge”) do elenco fizeram com que o telespectador abrisse os olhos para ver que esse produto tem muito fôlego ainda. “Salve Jorge”, desastrosa, baixou todos esses níveis de qualidade a um nível impensável para uma produção da Rede Globo. Aqui uma galeria com alguns dos erros: http://televisao.uol.com.br/album/2013/05/13/relembre-alguns-erros-de-continuidade-de-salve-jorge.htm#fotoNav=3

“Amor à Vida”, de Walcyr Carrasco, marca a estreia deste no horário das 9. Autor de sucessos das 6 (“Chocolate com Pimenta, “Alma Gêmea”) e das 7 (“Sete Pecados”, “Caras e Bocas”), além do remake de "Gabriela" no ano passado, Carrasco tem tudo para reverter o quadro deixado pela turma da Turquia, do Alemão e de Gloria Perez. As imagens das chamadas já mostram uma novela ágil, com uma fotografia muito superior (mostrar imagens de cartão postal como em “Salve Jorge” é inútil. Coisas da década de 90), número reduzido de personagens (em torno de 40, assim como "Avenida Brasil") e história mais coerente, mas não menos “requentada”: irmão com ciúme da irmã, mãe possessiva, filha rebelde, homem e mulher encontram-se num acaso do destino, casal gay, etc.

“Salve Jorge” termina com a menor média geral entre todas as produções das 9, 34 pontos. Mas será eternamente lembrada pelo modo de como NÃO fazer uma produção audiovisual, seja ela filme, novela ou seriado. E, claro, pela zoação feita infinitamente nas redes sociais. Já "Amor à Vida" estreia ainda com a sombra de "Avenida Brasil".

Mas, depois de "Salve Jorge", o que vier é lucro.

*O título é a hashtag que ficou no topo dos tranding topics mundiais do twitter.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

A hora e a vez da zona norte de SP em "Sangue Bom"


Globo aposta novamente em São Paulo para a novela das 7. Dessa vez acertou em cheio.

A estreia de “Sangue Bom” esteve cercada de expectativa. O fracasso do remake de “Guerra dos Sexos” – média geral de apenas 22 pontos – acendeu o sinal vermelho na emissora. Escrita por Maria Adelaide Amaral (outra especialista em São Paulo assim como Silvio de Abreu, o antecessor) e Vicent Villari, “Sangue Bom” acerta em cheio ao retratar uma São Paulo sem caricaturas (não há nenhuma Mooca para alguém falar “orra, meu!”) e com todas as suas nuances.

A novela é colorida e ágil graças à influência da urban art. Graffiti e flores convivem num abiente geralmente retratado pelo cinza. Sinceramente, não vi clichês da cidade. Talvez por retratar uma região pouco conhecida: a zona norte. Ambientada na Casa Verde (Villari nasceu e morou no bairro), no Jardim São Bento e em outros bairros como o Imirim e o Limão, a novela expõe as diferenças sociais de cada lugar. Uma Casa Verde simples, com características de bairro em que as pessoas ficam na rua e com seus barzinhos de música ao vivo. Há também uma escola de samba (a zona norte conentra o maior número de escolas na cidade), que foi despejada para dar lugar a um empreendimento imobiliário – a zona norte tem um dos maiores booms de crescimento residencial na cidade. Por outro lado, há o Jardim São Bento emergente, rico. Nada de Jardins e Mooca. A cultura urbana se fez presente ainda com o rap e o hip-hop: o rapper Emicida, natural da zona norte, fez uma participação num protesto durante o lançamento do empreendimento – aliás, bem chato, irreal, um flashmob mal feito.

Enquanto “Guerra dos Sexos” exagerou na caricatura e no humor infantil, “Sangue Bom” acerta o tom. O humor é irônico, sutil. Maria Adelaide é experiente no assunto e traz personagens caricatos, mas não esquisitos: a Bárbara Ellen de Giulia Gam promete ser o destaque da novela. As tiradas da atriz decadente que tenta a fama a qualquer custo vão virar memes nas redes sociais. Diz que está “cansada de dividir pinça e cremes com um metrossexual” quando está se separando do jovem Jonathan James, um garotão que enriqueceu as custas do casamento com a atriz. Convoca a imprensa para divulgar a separação e um dos filhos adotivos diz: “a mídia adora uma vítima”. O ponto máximo foi quando Bárbara fala da traição de Jonatan com Brunetty (Ellen Roche, perfeita para o papel): “eu quero ver a cara de cu...íca daqueles dois!”. Esses tipos estão aí, aos montes, despejados em sites e revistas. É uma crítica bem humorada, sem ser canhestra ou ofensiva.

O elenco de protagonistas é jovem e garante bons momentos. Sophie Charlotte (Amora, a itgirl, adotada por Bárbara) é fútil como a mãe, mas é o grande amor de Bento (Marco Pigossi), criados no mesmo orfanato na Casa Verde. Ele é pobre e ela está de casamento marcado com Maurício (Jayme Matarazzo). Giane (Isabelle Drummond) é a doce maloqueira, também apaixonada por Bento e criada no orfanato. Malu (Fernanda Vasconcellos) é apaixonada por Maurício, noivo da irmã Amora, já que é filha legítima de Bárbara – e é rejeitada. O rebelde Fabinho (Humberto Carrão) também vem do orfanato, mas foi para o interior onde vive com a mãe, outrora rica por causa do pai. Além desses, o elenco tem estrelas como Malu Mader, Letícia Sabatella, Marco Ricca, Herson Capri, Regiane Alves, Felipe Camargo, Yoná Magalhães, Daniel Dantas, Louise Cardoso, Deborah Evelyn, Ingrid Guimarães e Marisa Orth, voltando aos bons tempos de humor como a ex de Wilson (Marco Ricca). Como é possível ver, o elenco é grande: 64 personagens.

A trilha sonora consegue fazer um mix da atual São Paulo: samba, pagode, rap e hip-hop, dando voz aos guetos da cidade. No primeiro capítulo a trilha foi jogada aos ouvidos, sem miséria. A abertura fica por conta do fraco Sambô, com uma releitura de “Toda Forma de Amor”. Como não poderia deixar de ser, a abertura é colorida, com floriais, abusa dos grafismos e da modernidade para retratar um jovem conectado, cosmopolita, urbano.

O primeiro capítulo não mostrou todos os personagens e nem o potencial daqueles que podem fazer barulho, como a corintiana Giane. Foi ágil e tem fôlego para muito mais. Mas mostra que é possível ver uma São Paulo que vai além dos clichês Mooca e Jardins, que existe São Paulo além desses bairros. E eu, como morador da zona norte e nascido na Casa Verde, é um prato cheio. Segundo a prévia no Ibope, atingiu 26 pontos com picos de 28, abaixo da estreia de “Guerra dos Sexos” (28) e ainda abaixo da meta (30).

“Sangue Bom” não tem muitas pretensões. É um bom produto, mas parece que ainda falta alguma coisa. É tudo muito bonito, tudo lindo, como se todos os personagens vivessem em harmonia. Falta “sangue”, porque de “bom” já basta a zona norte.


sexta-feira, 22 de março de 2013

E, de novo, a melhor novela é a das 6

Depois de tirar algumas conclusões precipitadas de outras novelas ao analisar somente o primeiro capítulo, esperei duas semanas para falar de “Flor do Caribe”, a nova novela das 6. E tive sorte.

“Flor do Caribe” é a melhor novela no ar atualmente. Elenco afiado, fotografia deslumrante e história bem costurada. O experiente autor Walther Negrão sabe o que faz e lá estão todos os elementos de suas novelas: casais jovens, bonitos, lugares deslumbrantes e um texto leve, próprio do horario. Jayme Monjardim é o diretor e claro, lá estão suas tomadas amplas, paisagens mostradas numa imensidão de cores e beleza.

O elenco é formado por grandes atores. Laura Cardoso, Sergio Mamberti, Juca de Oliveira, Luis Carlos Vasconcellos, Cacá Amaral, Bete Mendes e Angela Vieira são destaques. O Dionísio Albuquerque de Sergio Mamberti é o destaque da novela. Há um tempo afastado, Mamberti só reiteira o quão grande ator é. Laura Cardoso e sua Veridiana parecem saídas de “Gabriela”, só faltando falar “é tudo quenga!”. Juca de Oliveira interpreta o judeu Samuel, que fugiu dos horrores do holocausto quando criança, numa das melhores historias da novela. Além disso, ainda há uma ligação misteriosa no passado de Dionísio e Samuel. Nessa lista de veteranos há ainda Aílton Graça, Rita Guedes e Jean Pierre Noher. A novela ainda contará com Débora Escobar, que viverá um romance com um garoto bem mais novo (Bruno Gissoni).

Ao lado deles, um elenco de jovens protagonistas, com Grazi Massafera, Henri Castelli e Igor Rickli. Esther (Grazi) é a típica mocinha sofredora enganada pelo vilão. A atriz se mostra cada vez melhor e mais madura na frente das câmeras. Cassiano (Henri) é o par romântico, enganado pelo vilão que se diz seu amigo. O ator é o pior dos três, com um desempenho um tanto “canastrão”. Beto (Igor) é o vilão que faz de tudo para ter Esther ao seu lado. Estreante em novelas, Igor Rickli não precisa de muito esforço para demostrar o cinismo do personagem: apenas com as expressões, fica fácil saber o quão dissimulado é.  Completam o elenco Raphael Vianna (faz Hélio, outra história interessante na novela, o conflito entre pai – Donato, personagem de Luis Carlos Vasconcellos – e filho), Buno Gissoni, José Loreto (um dos destaques da novela com o “abestalhado” Candinho), Débora Nascimento, Dudu Azevedo, Max Fercondini e Thiago Martins.

Acima, Rio Grande do Norte. Abaixo, Guatemala. Um convite
visual para uma historia bem costurada.

“Flor do Caribe” é um deleite visual. Imagens paradísiacas do Rio Grande do Norte e do Caribe são mostradas sem dó. A história já foi vista em outras novelas, mas a embalagem aqui é muito melhor. Estreou com apenas 18 pontos, já que tem a missão de reerguer os índices deixados pela ótima “Lado a Lado”. Em sua 2ª semana, já atingiu 21 pontos. A história tem fôlego, tem apelo visual (pelo elenco e paisagens) mas ainda peca no ritmo lento típico de novelas das seis.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

"Salve Jorge": salve-se quem puder


Salve Jorge: uma repetição de clichês
“Salve Jorge” estreou com a difícil missão de superar em audiência e popularidade a anterior, “Avenida Brasil”. Gloria Perez, a autora, é “gata escaldada”: novelas com apelo popular concentradas num romance com idas e vindas e a exposição maciça de uma cultura estrangeira, juntos com um – chato –merchandising social. É a quarta novela que Gloria apela a esses recursos e, pelo menos nesse primeiro capítulo, foram seguidos à risca. E, por motivos óbvios, parecem esgotados diante da proposta diferente de “Avenida Brasil”.

Nanda Costa ou Nada Consta?: sem carisma para
uma protagonista
É o estilo novelão. Se “Avenida” voltava a trama para o cinema e seriados, “Salve Jorge” mostra o que consagrou as novelas brasileiras. A novela começou com paisagens grandiosas da Turquia, o novo cenário e logo de cara, mostrou uma Morena (Nanda Costa) sendo posta a leilão. É “arrematada” por alguns mil euros e a próxima é anunciada: “Vejam senhores, que esplendor de tcheca”. Sim, a novela começou no futuro e voltou, sendo mostrado um “8 meses antes”. Não lembro outra novela ter utilizado esse recurso. Interessante.

A novela “volta” oito meses no meio de um tiroteio. Morena e o filho estão no fogo cruzado, quando traficantes e policiais travaram uma guerra no morro do Alemão, o outro cenário principal da novela. Imagens reais do conflito mostradas em telejornais se misturaram com as imagens da novela, garantindo um realismo pouco visto. Sim, tinha cara de documentário. Isso não tira o mérito, pois a edição foi muito bem construída.

Morro do Alemão tão belo quanto a Capadócia
A fotografia é típica das novelas de Gloria: grande angular, com paisagens, contrastes de cores, mas nada inovador. O Alemão e a Turquia são igualmente belos e grandiosos. A trilha sonora instrumental é grandiosa, digna dos grandes filmes de batalha. Já a trilha sonora original tenta pegar carona no popular, com funk, samba e pagode. O baile charme dá lugar ao “pagofunk”, sai o Divino e entra em cena a favela. Apesar de parecidas, são duas realidades completamente diferentes. O Divino era um retrato de um bairro, de famílias que, independentemente da classe social, são parecidas. Já o morro é uma realidade exclusiva de quem mora lá. Isso pode afastar uma parte do público. Nem é preciso falar do título, mais segregador do que qualquer outra coisa.

O contraste manjadíssimo de classes também é mostrado. Lucimar (Dira Paes), a empregada, moradora do Alemão, preocupada com o conflito e Drika (Mariana Rios), preocupada um futilidades. Drika parece uma versão enriquecida de Suellen (ísis Valverde, em “Avenida”). Mas a cota “periguete” da novela cabe à Lurdinha (Bruna Marquezine).

O casal: idas e vindas do amor. O sono bate à sua porta.
Mas está faltando algo: o protagonista. Théo (Rodrigo Lombardi) continua canastrão, assim como todos os outros personagens galãs que já fez. Ao comentar sobre os sonhos que tem na vida, Théo diz “Só? Você acha pouco?”. É como se quisesse mostrar que a novela é, sim, grande. Ele namora há um mês a companheira de batalhão Érica (Flávia Alessandra). Numa balada, os dois tem um diálogo forçado sobre sonhos. Em casa, Lívia debocha de Théo. Uma inversão de papeis.

Théo é devoto de São Jorge, pois foi soterrado num acidente quando era crianã. Era dia de Jorge e desde então crê no santo guerreiro.  Élcio (Murilo Rosa) será a pedra no sapato de Théo, já que os dois disputam posições no batalhão. É um invejoso nato. Os personagens de Gloria são assim: calcados nos estereótipos.

A novela segue uma proposta realista (só aqui, que fique claro) e mostra a invasão do exército no morro. Novamente imagens de jornalísticos. E aqui a ascensão social é mostrada de forma veemente: os jovens estão conectados, comentando a invasão na favela, na zona sul e no escritório. As famílias do morro têm notebook e TV de LED, smartphones e filmadoras. Isso não condiz com as tramas fantásticas de Glória Perez.

Seu Jorge, quer dizer, São Jorge caminha sobre as águas.
Quer mais fantástico que isso?
Depois de quase 40 minutos do primeiro bloco, a abertura. De fato, um dos pontos altos da novela. Seu Jorge (ah vá!) canta a música, com imagens gráficas incríveis, fantásticos, que misturam a favela com a Capadócia e um São Jorge galopante sobre águas e tudo o mais. É uma síntese da novela. A música não chega a ser “chiclete” como um “Oi Oi Oi”, mas agrada. A repetição de elementos faz lembrar “Caminho das índias”, a novela anterior de Gloria. Veja em: http://tvg.globo.com/novelas/salve-jorge/videos/t/salve-jorge/v/confira-a-abertura-de-salve-jorge/2203083/

O primeiro bloco foi inteiramente dedicado à apresentação do conflito principal e dos protagonistas Théo e Morena. Já o segundo, dedicado aos núcleos menores e personagens coadjuvantes. Coadjuvantes de peso. Heloísa (Giovanna Antonelli) me parece a mais segura no papel, junto com Dira Paes. Nanda Costa não tem nenhum carisma e não convence como protagonista, mesmo sendo uma moça humilde, porém forte e barraqueira. Carismática como uma porta. O merchandisng social foi mostrado rapidamente, com uma Carolina Dieckmann segura e explicando o “sonho”. Tudo muito rápido.

Lívia (Cláudia Raia): vilã ou cômica?
E enfim, no terceiro bloco, é apresentada a vilã-mor de “Salve Jorge”. Lívia (Cláudia Raia) “chega chegando”: se mostra como empresária. Mais uma ironia: Lívia diz “Não, não estou trazendo nenhum musical”. Raia é conhecida pelos grandes musicais que estrela. Cláudia Raia fazendo um papel de vilã é cômica.

E, ENFIM, Istambul, a capital turca é mostrada de fato: danças, danças, danças. Músicas, músicas, músicas. Expressões, expressões, expressões. Stênio (Alexandre Nero) e Drika vão ao estrangeiro num passe de mágica. Mustafa (Antonio Calloni) é mais um dos personagens estrangeiros desse ator, novamente numa novela de Gloria Perez. É o mesmo personagem. E começa o festival de expressões turcas seguidas da tradução em português.

Istambul IS THE NEW Marrocos ou IS THE NEW Índia
“Salve Jorge” é uma novela requentada, com os mesmos recursos de novelas anteriores de Gloria. Se essa encerra a trilogia iniciada com “O Clone”, “Salve” pode ser a pior parte, comum em trilogias. O primeiro capítulo não mostrou todos os personagens – são quase 80 – e muito menos os núcleos. O sucesso da trama pode estar calcado justamente nessa fantasia proposta, no melhor estilo novelão Gloria Perez de ser. Mas é uma missão difícil e a repercussão não foi positiva: no twitter, poucos foram os assuntos comentados e a novela estreou com 35 pontos de média, a pior estreia entre as 18 últimas novelas das nove.

Desse primeiro capítulo de "Salve Jorge", destaque – além da abertura - para MC Koringa, que emplaca novamente (em sequência, depois de “Avenida Brasil”) um funk na trilha sonora.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Brasil em tempo de novela


“Avenida Brasil” chega ao fim nesta sexta e, por mais que os conservadores-pseudo-intelectuais-docontra insistam em denegrir esse produto, essa novela é sem dúvida um marco na produção de teledramaturgia no país, quiçá no mundo.

A história criada por João Emanuel Carneiro remete a várias outras, como a série “Revenge”, o livro “O Pequeno Príncipe” e vários outros lidos mesmo na novela por Tufão (O Primo Basílio, O idiota, entre outros) e até mesmo à novela anterior de JEC, “A Favorita”. Diz o autor que Nina é cria da vilã Flora. Além disso, muitas referências ao cinema estão lá, como na cena em que Nina (Débora Falabella) é enterrada viva, assim visto em “Kill Bill”, do diretor Quentin Tarantino. E referências até às primeiras novelas de JEC, “Da Cor do Pecado” e “Cobras e Lagartos”. Créditos também à direção de Ricardo Waddington, Amora Mautner e José Luiz Villamarim, brilhantes na condução e execução das cenas.

Mas não se faz mais necessário discorrer sobre as tantas qualidades e os defeitos (ah, as fotos e o pen-drive pu então a pior cena da novela entre Monalisa e Silas sobre Ivana) de “Avenida Brasil”. Cabe agora, nesse momento em que o país fica na expectativa de saber o futuro de vários personagens, discutir sobre esse produto que é um mero entretenimento, por mais que digam o contrário.

Infelizmente ainda há o preconceito e a veemente fúria dos “conservadores” (para não dizer outra coisa) que insistem em dizer que novela é alienadora e prejudica a formação das pessoas. Aos machistas (que com certeza já viram um capítulo de “Avenida Brasil”, a mais machista das novelas), que acham que novela é coisa de “mulherzinha” ou de viado. Aos cultos, que acham que novela é sub-produto, inferior ao cinema e seriados (americanos, claro). É impressionante como um produto que é o mais rentável e de maior audiência na TV brasileira – veja só, os capítulos dão mais audiência que uma final de Libertadores – ainda é execrado e tido como menor, inferior, lixo. Os grandes jornais não podem falar do assunto, afinal a “elite conservadora” acha um absurdo, uma babaquice, uma “emburração”. Mas, porra, novela não é feita para ensinar ninguém. Não é instrumento de educação. Mas falar sobre filmes, cinema e seriados, pode. Vai entender...

É preciso entender que cada país tem um tipo de produção audiovisual. Se os americanos são reconhecidos pela produção cinematográfica e de seriados de sucesso, aqui o caso é com as novelas. O Brasil é o maior produtor de novelas no mundo, com inúmeras opções e qualidades. O que falta para tudo isso ser reconhecido como uma coisa boa? O complexo de vira-lata do brasileiro é recorrente em vários setores. A devoção ao que vem de fora é gritante e irritante. A desculpa de que “temos que nos preocupar com outras coisas” é pura falação. Afinal, o que falta para as novelas serem reconhecidas como um produto tão bom quanto filmes e seriados?

Por mais que a novela faça referência – e porque não, reverência – ao tipo americano de produção, com imagens, câmeras, enquadramentos, trilhas, visual, etc, ela ainda é tida como produto “pro povão”, que “não entende”, que quer consumir de graça, que é alienado e “não tem o que fazer”. E, veja só novamente, uma novela (Caminho das Índias) ganhou o Emmy Internacional (o Oscar da TV mundial) como melhor novela. A primeira novela das 11, “O Astro”, está concorrendo ao mesmo prêmio este ano. Mas ainda querem mais.

Acredito que um dia essa situação pode mudar e, aí sim, a novela pode ser acompanhada por cada vez mais e bons olhos. 

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Pense numa novela ruim. É "Balacobaco", da Record


Com a missão de apagar a tragédia causada por “Máscaras”, a nova novela da Record, “Balacobaco” teve publicidade exaustiva. A missão de retomar os bons números é difícil e a emissora tem que procurar saídas para reverter esse quadro. “Balacobaco” foi encomendada à autora Gisele Joras (de “Bela, a Feia” e “Amor e Intrigas”) às pressas, já que a antecessora capengou no ibope e teve que ser encurtada. No site, é anunciada como “uma das maiores novelas da Rede Record”, com “cenas incríveis” e “elenco de primeira”. Tsc, tsc, tsc...

Antes da novela, a Record exibiu o filme “A Era do Gelo”. Um GC (caracteres) era exibido na tela “avisando” o telespectador da estreia (ele voltou durante a novela). Um desrespeito a quem estava assistindo o filme, já que o GC atrapalhava a visão. Sem intervalos, “Balacobaco” começou surpreendente: uma animação caprichada, não era a abertura, mas era algo diferente. A primeira impressão era que a novela viria com tudo. Era só impressão.

Norberto (Bruno Ferrari): bola de cristal para
saber quantos pontos dará no Ibope
A animação em questão era de um sonho de Norberto (Bruno Ferrari) em que matava Eduardo (Victor Pecoraro), seu sócio. Os personagens foram todos apresentados e o capítulo não teve sequer um intervalo. A dupla Cremilda e Zé Maria (Solange Couto e Silvio Guindane) tem a promessa de fazer rir. Fica na promessa. A protagonista Isabel (Juliana Silveira) é a única que parece à vontade no papel. Bruno Ferrari também, ao contrário do restante do elenco.

Dóris e Diva: gêmeas Paranhos. A sede de vingança das
duas faria Nina rir e enterrá-las vivas
A Record tomou gosto ao utilizar animação gráfica nas novelas. Apesar do início interessante, os efeitos visuais entrecenas são de gosto duvidosos (um pac-man nas avenidas do Rio, só como exemplo).O apelo é “moderno”, mas é nonsense. Não há uniformidade, é um festival de desenhos e referências sem ligação alguma. A trilha sonora, veja bem... Se muitos reclamavam da trilha “popular” de “Avenida Brasil”, “Balacobaco” é um convite à surdez. MC Catra faz falta na trilha.

A fotografia é mais viva do que “Máscaras”, mas ainda assim a Record sofre com a iluminação nas novelas. Tentei regular a imagem da TV, mas o problema é lá mesmo. A cenografia beira o kitsch e lembra visualmente “Bela, a Feia”, da mesma autora. Até o escritório tem referências do escritório de moda de “Bela”. A caracterização dos personagens não ajuda a compor a idade que dizem que tem. Isabel (Juliana Silveira) e Teresa (Juliana Baroni) – uma profusão de ex-Malhação, ex-angeliquetes e ex-paquitas – tem uma diferença de idade de 7 anos, com Teresa sendo a mais velha. Não é verossímil. Na cena do assalto e do acidente, Diva (Bárbara Borges) e Dóris (Ana Roberta Gualda, gêmeas, tem 16 anos, mas aparentam ser muito mais velhas do que atualmente. São erros primários, toscos.

"Né brinquedo não!": ops, errei a novela
“Balacobaco” não inova. A trama de “sede de vingança” das gêmeas Paranhos chega a beirar o ridículo: Isabel é sequestrada pelas gêmeas, mas escapa do sequestro e as duas batem o carro, causando um grave acidente. O problema é que esse acidente gerou uma cicatriz de interrogação (?) em Dóris e de exclamação (!) em Diva. As gêmeas culpam Isabel pelas cicatrizes. É, no mínimo, bizarro. A premissa é fraca. A motivação da vingança é vazia. Um bom vilão tem de ter uma boa justificativa para as “maldades”. Cicatrizes, veja bem...

A proposta da novela é impossível de ser conhecida. Se “Máscaras” tinha isso bem definido, ainda que não tenha dado certo, “Balacobaco” foi feita às pressas, um tapa-buraco pelo encurtamento da novela anterior. O “humor” da novela não convence: é caricato e é levado ao extremo. Não deve nada ao “Zorra Total”.

No final, o clímax foi interrompido por um clipe que pareceu imagens de vários próximos capítulos e não apenas do próximo. A abertura foi exibida por último e, se taparmos os ouvidos, é digna de nota. É excelente, criativa. Mas a trilha tenta pegar carona no “oi oi oi” de “Avenida Brasil”. Fica na tentativa, é ruim, muito ruim.

“Balacobaco”, segundo a prévia do ibope, deve ter perdido para o SBT, ficando em 3º lugar entre 7 e 9 pontos. Assim que a novela começou, o ibope da Record veio abaixo, de 12 para 7. Se a emissora quis fazer uma novela que honrasse o nome, ela conseguiu. “Balacobaco” é aquele delírio que beira a vertigem, de tão ruim. 

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

"Guerra dos Sexos": remake em quadrinhos


Dessa vez não há o símbolo de "versus". Os dois sexos estão
em pé de igualdade
Aquele que achar que “Guerra dos Sexos” tem que ser o retrato fiel de uma suposta guerra entre sexos, está enganado. Ou então que seja real, num momento em que as mulheres estão no poder, também está enganado. A nova novela das 19 horas da Rede Globo é um convite à diversão, uma tiração de sarro no melhor estilo Silvio de Abreu de fazer novelas. São Paulo, lojas, a Mooca, a rica zona sul. Todos os elementos preferidos do autor estão lá.

A novela começa com a leitura do testamento deixado pelos finados Charlô I e Otávio I (Fernanda Montenegro e Paulo Autran na primeira versão) e, claro, a disputa entre os primos Bimbinho e Cumbuqueta, Tony Ramos e Irene Ravache (com direito até a capa de bruxa) ao saber que serão sócios.  O uso de animação gráfica já começou nas primeiras cenas e chegou à abertura, com uma qualidade tamanha que não era possível, num primeiro momento, distinguir o que era real ou animado. Ainda nas primeiras cenas, a exibição de cenas da primeira versão e os quadros de Fernanda e Paulo animados com expressões farão referências à trama original. Uma tentativa de aproximar os que assistiram pela primeira vez.

Abertura recria a cena clássica da primeira versão
A trilha sonora incidental é pastelão, do jeito que Silvio de Abreu gosta, combinando com o tom humorístico de praticamente todas as cenas. Para manter a nostalgia da versão anterior, músicas da trilha sonora voltam repaginadas. A fotografia é viva, não tão colorida como em “Cheias de Charme”, mas viva, vibrante. Há também o uso de outros tipos de lente, tomadas não convencionais (como nas pernas que Bimbinho viu do carro e visão que quadro de Charlô I e Otávio I), dando uma cara de história em quadrinhos para a novela. A animação gráfica ainda se mostrou presente na fachada da loja Charlô’s. Para aumentar mais essa sensação de “história animada”, o carro antigo de Bimbinho é o contraste com a modernidade de São Paulo.

Uma São Paulo viva e rica, mostradas na zona sul e na zona leste com a Mooca. Isso pode afastar o público popular (do morro) da novela anterior, mas a temática urbana (vista no lançamento da coleção, skate, transições de cenas e MMA) reforça essa identidade que, mesmo viva, é totalmente oposta ao universo (chato) das empreguetes de “Cheias de Charme”.

“Guerra dos Sexos” marca a volta de Luana Piovani às novelas e Reynaldo Gianechinni após o câncer. Drica Moraes também está de volta após uma leucemia. O elenco, de primeira linha, segura a novela, que tem um texto leve, caricato, uma marca do humor de Silvio de Abreu. Os clichês dos sexos estão todos lá: mulher não sabe dirigir, homem é mal educado e barbeiro, mas conta com uma máxima dos nossos dias: as mulheres no poder representadas por Charlô pilotando um avião.

Fernandona e Autran presentes no remake
O remake de “Guerra dos Sexos” é, sem dúvida, uma novela para todos os sexos. Se nos anos 1980 era um embate onde os homens estavam no poder, hoje a piada pode soar tosca, mas ainda garante algumas risadas. Tony Ramos e Irene Ravache estão ótimos, mas a novela corre o risco de ter uma rejeição do público anterior. Uma novela de meninas, empreguetes e sonhadoras. Um porre.

“Guerra dos Sexos” é uma historia em quadrinhos, por vezes tosca, por vezes engraçada. Não é uma novela convencional. Enfim, a guerra está declarada!



Guerra dos Sexos
19h
Direção: Jorge Fernando
Autor: Sílvio de Abreu
Para saber mais: guerradossexos.globo.com

terça-feira, 11 de setembro de 2012

E que a voz da liberdade...

...Seja sempre a nossa voz! Globo investindo pesado em coisas das "camadas populares": samba e futebol presentes nas novelas das 21 horas, “Avenida Brasil” e agora na das 18 com “Lado a Lado”. E isso é ótimo.

"Lado a Lado" é daquelas novelas que cairia muito bem como uma minissérie. Mas ainda bem que virou novela, afinal é preciso mostrar mais um pouco de historia, fazer o povo (ou a grande massa, que consome mais novela do que minissérie) resgatar momentos importantes da historia do nosso país. Isso é mais importante do que fazer qualquer tipo de ficção com propaganda (ou doutrina) de religião, como foi a anterior, "Amor Eterno Amor".

A abertura é uma das mais bonitas dos últimos anos, apesar do clichê de gravar imagens da época com uma trilha. Aqui, vale a produção caprichada e o samba escolhido, que cai como uma luva para o momento histórico da novela e para a propria historia do folhetim. Isso é uma ousadia para a emissora, que sempre deixou o samba (especificamente o samba-enredo) somente para a época de carnaval. Viva o samba!


Mas isso não quer dizer que eu vá assistir. Além do horário, é mais uma daquelas novelas de época água com açúcar. Em “Lado a Lado” conta pontos o momento histórico que ela mostra, pouco contado na TV, a produção rica e o elenco: Patrícia Pillar, Camila Pitanga e Milton Gonçalves só para citar alguns exemplos.. E só. Os clichês das disputas “raciais” e de classe estão lá, a pose das baronesas e a situação ainda desfavorável aos negros – recém-libertados da escravidão também.

Vendo algumas cenas, é inevitável a comparação com outras novelas. O futebol de “Avenida Brasil” está lá, mostrado no início do esporte no Brasil. O encontro das heroínas é muito parecido com o encontro das “Empreguetes” de “Cheias de Charme”: encontraram-se num momento difícil da vida de cada uma e, a partir daquele momento, tornaram-se amigas para sempre.

O primeiro capítulo deu apenas 18 pontos de audiência. Pouco para o horário, que almeja pelo menos entre 20 e 25. Agora é esperar e ver se a historia cativa a dona de casa do horario, ainda que tenha elementos que poderiam atingir um público mais amplo e até masculino. 

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Avenida Brasil e a crise dos 40... Quer dizer, dos 100

Carminha LIKE A Camila. Música: Love by Grace.

É sabido que a atual novela das 9 chegou ao 100º capítulo cercado de expectativa. Foi a descoberta de Carminha da farsa criada por Nina/Rita. Nos capítulos seguintes, Carminha vingou-se, enterrou a enteada viva, em dois dias. Nina volta dos mortos e aplica uma nova vingança. Longa. Uma semana de escravidão. A patroa vira empregadinha. A empregadinha começa a fazer justiça. Detalhe: muita coragem do autor em modificar o visual de uma personagem. Numa novela, assim como em um gibi, é um risco mudar a personagem de tal maneira. Voltando: a família Tufão fica sem saber de nada, por uma semana. Longa. E aí... A novela volta ao que era antes.

Explico: depois da comoção causada pelo capítulo 100, “Avenida Brasil” ganhou mais ares de seriado ainda. Uma semana final de novela antecipada. Essa agitação estendeu-se até o capítulo 108. Os outros núcleos tornaram-se adereços. Com a volta da família (que estava viajando), o teatro armado por Nina começa a tomar um rumo normal. A situação volta ao que era antes, mas com papeis invertidos, ao menos no “teatro” Carminha e Nina. Jorginho volta a ser o imbecil que foi toda a novela, questionando as atitudes de Nina. Esta última volta a dizer o que disse sempre ao amor de infância: “é tudo por justiça e um dia você vai entender, é para o bem de todos”. Chato, chato, chato.

Nina e Carminha: almas gêmeas
Para alguns, a novela perdeu fôlego. A vingança chantageadora de Nina em Carminha quebrou o ritmo alucinante que a novela tinha. Eu, particularmente, achei válido. Não foi apenas uma vingança e sim uma “preparação”. Uma nova fase da novela. Não poderia ser tão rápido como a maioria queria. O frisson causado pelo capítulo 100 (e os seguintes) foi suficiente para elevar o grau de ansiedade do público, gerando esse incômodo com vingança de Nina.

Vingança suficiente para grande parte do público rejeitar Nina e ficar com dó de Carminha – o que é um absurdo. Fazer o que ela faz com Tufão e cia é nojento, além de destruir a infância de Rita/Nina. Mas, tem quem goste. Até o fim de “Avenida Brasil”, penicos vão voar.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

É culpa da Rita


Como não poderia deixar de ser... Sim, o primeiro assunto a ser falado aqui é sobre essa novela infame. “Avenida Brasil” tem causado discussões intermináveis nas redes sociais – assim como aconteceu quando o Corinthians estava na Libertadores. De um lado, os que defendem a vingadora e supostamente justiceira Nina/Rita. Do outro, os que apoiam e sentem dó daquela que é considerada “o baluarte da moral divinense”, Carminha. As duas personagens movimentam a trama da novela de forma que os outros núcleos pareçam meros adereços. Os embates recentes entre as duas mostram que a novela ainda tem o poder de ser destaque nos vários meios de comunicação, ainda que a audiência não seja a mesma de 5, 10 anos atrás. Os hábitos mudaram, mas falar sobre o assunto continua sendo tão mais interessante quanto antes.

As atrizes Débora Falabella e Adriana Esteves tem demostrado total entrega às personagens. O ódio exala em cada uma. Mas o desejo do telespectador é ver o circo pegar fogo, coisa que diminuiu de ritmo nos últimos capítulos. Depois da cena em que Carminha enterra Nina – que, sem dúvida, está no mural das grandes cenas da teledramaturgia nacional – a novela passou a ter um ritmo de seriado. Apenas os confrontos entre as duas é(ra) o que interessa(va). Nina saiu da cova tal como Beatrix Kiddo (ou” A Noiva” de Kill Bill) e partiu para dar o troco. Antes que os “cinéfilos-cults-apaixonados-pela-sétima-arte” que não admitem isso, lembrem-se que o próprio Quentin Tarantino é cheio de referências. Por que uma novela não pode? Ah sim, a novela é do “povo”, por isso é um “sub-produto”. Enfim, isso é assunto para outro dia. Voltando à vingança, Nina passou a semana passada praticamente inteira fazendo Carminha de escrava. Os papeis se invertem, a patroa vira empregada e vice-versa. Na base da chantagem, Nina toma as rédeas e causa um efeito contraditório: as pessoas estão com pena da Carminha! Eu, que acompanho a novela desde o início, não consigo entender, apesar de Carmem Lúcia ser uma das vilãs mais carismáticas.

A pergunta que fica é: qual o motivo dessa novela ser tão discutida? Alguns podem até dizer que é superestimada. E, sinceramente, tem um pouco de razão sim. Vamos aos motivos dessa superstimação:

- Novela, folhetim: “Avenida Brasil” é, primeiramente, uma novela, derivada do folhetim e, portanto, segue essa característica à risca: vilã x mocinha e outros núcleos para adensar a trama, ainda que a mocinha não seja tão mocinha e a vilã idem.

- Tema: é uma trama de vingança. E quantas outras tantas novelas e livros já não trataram do tema: “Insensato Coração” com Norma (Glória Pires), “Chocolate com Pimenta” com Ana Francisca Mariana Ximenes, o seriado “Revenge” e até o clássico “O Conde de Monte Cristo”. Portanto, não é um tema diferente e muito menos mal explorado.

- Tem apelo popular: apesar de discordar veentemente do clichê “nova classe C”, que tem em praticamente todas as novelas, “Avenida Brasil” tem tipos populares que estão no imaginário das pessoas. Tem a piriguete (Suellen), o malandro (Leleco), o ex-jogador de futebol carismático (Tufão)... Sem falar nas empregadas Zezé e Janaína, engraçadíssimas e peças que movimentam de forma direta a trama Nina x Carminha.

- Trilha sonora mais popular ainda: de gosto duvidoso, sim, com alguns rompantes de qualidade. Mas é disso que a massa gosta!

- Elenco de primeira linha: a novela reúne estrelas do primeiro time da emissora, em papeis de vários níveis. Chama a atenção ea entrega da grande maioria do elenco, que mistura veteranos e jovens talentos.

Todos esses movitos já foram vistos em outras novelas, isso é um fato. O que faz então, de “Avenida Brasil”, um sucesso de crítica? Eis os motivos:

- Produção caprichada: nunca antes se viu, em uma novela das 9, uma fotografia e direção de arte de tamanha importância e qualidade. Com referências claras do cinema e seriados americanos, a fotografia ajuda a contar a história de maneira sem igual. É tudo muito bem cuidado, muito bem feito. Repare que na grande maioria das cenas os personagens centrais tem uma luz chiaroscuro. Explico: a técnica italiana renascentista aparece no rosto dos personagens mais densos, com metade clara e metade escura. Uma evidência de que todos os personagens – assim como a vida real – têm nuances de bondade e maldade. Junto a isso, tem a direção de Ricardo Waddington e Amora Mautner. Ótimos.

- Roteiro: João Emanuel Carneiro é, sem dúvida, o grande autor da nova geração. Roteirista de “Central do Brasil” e autor de “A Favorita” (2008), o escritor não precisava mais mostrar a que veio. Mas mostrou. “Avenida Brasil” é escrita de forma brilhante, diálogos costurados, inteligentes. É aí que reside a força da história de vingança já mostrada várias vezes, mas contada e dialogada de outra maneira.

- Força das redes sociais: o público da novela é majoritamente jovem, pois a trama é pesada. Os bordões (como o do título do post) e a "Nina em todos os lugares" viraram páginas no Facebook. Montagens e mais montagens são “tudo culpa da Rita”. Nunca antes foi vista uma mobilização em torno de um capítulo de número 100 de uma novela. A hashtag (só um exemplo) #OiOiOi100 foi tranding topic mundial no twitter – assim como o 101, 102, 103... Os avatares e planos de fundo dos usuários foram “congelados”, tal qual o final dos capítulos.

- Abrangência de público: a novela resgatou um público importante, mas preconceituoso até então. Os homens acompanham a novela tão quanto acompanham seriados (o que não consigo entender a diferença). Um público que talvez tenha percebido só agora que novela não é só “coisa de mulher e viado”. Mas isso é tema para outro dia.

- Concorrência fraca: as outras emissoras não tem o que mostar no horário. SBT e Record comem poeira.

“Avenida Brasil” pode até superar, por pouco, a antecessora (fraquíssima) “Fina Estampa” (do chato Aguinaldo Silva). Mas que é uma nova forma de fazer novela, ah, isso não tem dúvidas.