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segunda-feira, 22 de outubro de 2012

"Salve Jorge": salve-se quem puder


Salve Jorge: uma repetição de clichês
“Salve Jorge” estreou com a difícil missão de superar em audiência e popularidade a anterior, “Avenida Brasil”. Gloria Perez, a autora, é “gata escaldada”: novelas com apelo popular concentradas num romance com idas e vindas e a exposição maciça de uma cultura estrangeira, juntos com um – chato –merchandising social. É a quarta novela que Gloria apela a esses recursos e, pelo menos nesse primeiro capítulo, foram seguidos à risca. E, por motivos óbvios, parecem esgotados diante da proposta diferente de “Avenida Brasil”.

Nanda Costa ou Nada Consta?: sem carisma para
uma protagonista
É o estilo novelão. Se “Avenida” voltava a trama para o cinema e seriados, “Salve Jorge” mostra o que consagrou as novelas brasileiras. A novela começou com paisagens grandiosas da Turquia, o novo cenário e logo de cara, mostrou uma Morena (Nanda Costa) sendo posta a leilão. É “arrematada” por alguns mil euros e a próxima é anunciada: “Vejam senhores, que esplendor de tcheca”. Sim, a novela começou no futuro e voltou, sendo mostrado um “8 meses antes”. Não lembro outra novela ter utilizado esse recurso. Interessante.

A novela “volta” oito meses no meio de um tiroteio. Morena e o filho estão no fogo cruzado, quando traficantes e policiais travaram uma guerra no morro do Alemão, o outro cenário principal da novela. Imagens reais do conflito mostradas em telejornais se misturaram com as imagens da novela, garantindo um realismo pouco visto. Sim, tinha cara de documentário. Isso não tira o mérito, pois a edição foi muito bem construída.

Morro do Alemão tão belo quanto a Capadócia
A fotografia é típica das novelas de Gloria: grande angular, com paisagens, contrastes de cores, mas nada inovador. O Alemão e a Turquia são igualmente belos e grandiosos. A trilha sonora instrumental é grandiosa, digna dos grandes filmes de batalha. Já a trilha sonora original tenta pegar carona no popular, com funk, samba e pagode. O baile charme dá lugar ao “pagofunk”, sai o Divino e entra em cena a favela. Apesar de parecidas, são duas realidades completamente diferentes. O Divino era um retrato de um bairro, de famílias que, independentemente da classe social, são parecidas. Já o morro é uma realidade exclusiva de quem mora lá. Isso pode afastar uma parte do público. Nem é preciso falar do título, mais segregador do que qualquer outra coisa.

O contraste manjadíssimo de classes também é mostrado. Lucimar (Dira Paes), a empregada, moradora do Alemão, preocupada com o conflito e Drika (Mariana Rios), preocupada um futilidades. Drika parece uma versão enriquecida de Suellen (ísis Valverde, em “Avenida”). Mas a cota “periguete” da novela cabe à Lurdinha (Bruna Marquezine).

O casal: idas e vindas do amor. O sono bate à sua porta.
Mas está faltando algo: o protagonista. Théo (Rodrigo Lombardi) continua canastrão, assim como todos os outros personagens galãs que já fez. Ao comentar sobre os sonhos que tem na vida, Théo diz “Só? Você acha pouco?”. É como se quisesse mostrar que a novela é, sim, grande. Ele namora há um mês a companheira de batalhão Érica (Flávia Alessandra). Numa balada, os dois tem um diálogo forçado sobre sonhos. Em casa, Lívia debocha de Théo. Uma inversão de papeis.

Théo é devoto de São Jorge, pois foi soterrado num acidente quando era crianã. Era dia de Jorge e desde então crê no santo guerreiro.  Élcio (Murilo Rosa) será a pedra no sapato de Théo, já que os dois disputam posições no batalhão. É um invejoso nato. Os personagens de Gloria são assim: calcados nos estereótipos.

A novela segue uma proposta realista (só aqui, que fique claro) e mostra a invasão do exército no morro. Novamente imagens de jornalísticos. E aqui a ascensão social é mostrada de forma veemente: os jovens estão conectados, comentando a invasão na favela, na zona sul e no escritório. As famílias do morro têm notebook e TV de LED, smartphones e filmadoras. Isso não condiz com as tramas fantásticas de Glória Perez.

Seu Jorge, quer dizer, São Jorge caminha sobre as águas.
Quer mais fantástico que isso?
Depois de quase 40 minutos do primeiro bloco, a abertura. De fato, um dos pontos altos da novela. Seu Jorge (ah vá!) canta a música, com imagens gráficas incríveis, fantásticos, que misturam a favela com a Capadócia e um São Jorge galopante sobre águas e tudo o mais. É uma síntese da novela. A música não chega a ser “chiclete” como um “Oi Oi Oi”, mas agrada. A repetição de elementos faz lembrar “Caminho das índias”, a novela anterior de Gloria. Veja em: http://tvg.globo.com/novelas/salve-jorge/videos/t/salve-jorge/v/confira-a-abertura-de-salve-jorge/2203083/

O primeiro bloco foi inteiramente dedicado à apresentação do conflito principal e dos protagonistas Théo e Morena. Já o segundo, dedicado aos núcleos menores e personagens coadjuvantes. Coadjuvantes de peso. Heloísa (Giovanna Antonelli) me parece a mais segura no papel, junto com Dira Paes. Nanda Costa não tem nenhum carisma e não convence como protagonista, mesmo sendo uma moça humilde, porém forte e barraqueira. Carismática como uma porta. O merchandisng social foi mostrado rapidamente, com uma Carolina Dieckmann segura e explicando o “sonho”. Tudo muito rápido.

Lívia (Cláudia Raia): vilã ou cômica?
E enfim, no terceiro bloco, é apresentada a vilã-mor de “Salve Jorge”. Lívia (Cláudia Raia) “chega chegando”: se mostra como empresária. Mais uma ironia: Lívia diz “Não, não estou trazendo nenhum musical”. Raia é conhecida pelos grandes musicais que estrela. Cláudia Raia fazendo um papel de vilã é cômica.

E, ENFIM, Istambul, a capital turca é mostrada de fato: danças, danças, danças. Músicas, músicas, músicas. Expressões, expressões, expressões. Stênio (Alexandre Nero) e Drika vão ao estrangeiro num passe de mágica. Mustafa (Antonio Calloni) é mais um dos personagens estrangeiros desse ator, novamente numa novela de Gloria Perez. É o mesmo personagem. E começa o festival de expressões turcas seguidas da tradução em português.

Istambul IS THE NEW Marrocos ou IS THE NEW Índia
“Salve Jorge” é uma novela requentada, com os mesmos recursos de novelas anteriores de Gloria. Se essa encerra a trilogia iniciada com “O Clone”, “Salve” pode ser a pior parte, comum em trilogias. O primeiro capítulo não mostrou todos os personagens – são quase 80 – e muito menos os núcleos. O sucesso da trama pode estar calcado justamente nessa fantasia proposta, no melhor estilo novelão Gloria Perez de ser. Mas é uma missão difícil e a repercussão não foi positiva: no twitter, poucos foram os assuntos comentados e a novela estreou com 35 pontos de média, a pior estreia entre as 18 últimas novelas das nove.

Desse primeiro capítulo de "Salve Jorge", destaque – além da abertura - para MC Koringa, que emplaca novamente (em sequência, depois de “Avenida Brasil”) um funk na trilha sonora.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Pense numa novela ruim. É "Balacobaco", da Record


Com a missão de apagar a tragédia causada por “Máscaras”, a nova novela da Record, “Balacobaco” teve publicidade exaustiva. A missão de retomar os bons números é difícil e a emissora tem que procurar saídas para reverter esse quadro. “Balacobaco” foi encomendada à autora Gisele Joras (de “Bela, a Feia” e “Amor e Intrigas”) às pressas, já que a antecessora capengou no ibope e teve que ser encurtada. No site, é anunciada como “uma das maiores novelas da Rede Record”, com “cenas incríveis” e “elenco de primeira”. Tsc, tsc, tsc...

Antes da novela, a Record exibiu o filme “A Era do Gelo”. Um GC (caracteres) era exibido na tela “avisando” o telespectador da estreia (ele voltou durante a novela). Um desrespeito a quem estava assistindo o filme, já que o GC atrapalhava a visão. Sem intervalos, “Balacobaco” começou surpreendente: uma animação caprichada, não era a abertura, mas era algo diferente. A primeira impressão era que a novela viria com tudo. Era só impressão.

Norberto (Bruno Ferrari): bola de cristal para
saber quantos pontos dará no Ibope
A animação em questão era de um sonho de Norberto (Bruno Ferrari) em que matava Eduardo (Victor Pecoraro), seu sócio. Os personagens foram todos apresentados e o capítulo não teve sequer um intervalo. A dupla Cremilda e Zé Maria (Solange Couto e Silvio Guindane) tem a promessa de fazer rir. Fica na promessa. A protagonista Isabel (Juliana Silveira) é a única que parece à vontade no papel. Bruno Ferrari também, ao contrário do restante do elenco.

Dóris e Diva: gêmeas Paranhos. A sede de vingança das
duas faria Nina rir e enterrá-las vivas
A Record tomou gosto ao utilizar animação gráfica nas novelas. Apesar do início interessante, os efeitos visuais entrecenas são de gosto duvidosos (um pac-man nas avenidas do Rio, só como exemplo).O apelo é “moderno”, mas é nonsense. Não há uniformidade, é um festival de desenhos e referências sem ligação alguma. A trilha sonora, veja bem... Se muitos reclamavam da trilha “popular” de “Avenida Brasil”, “Balacobaco” é um convite à surdez. MC Catra faz falta na trilha.

A fotografia é mais viva do que “Máscaras”, mas ainda assim a Record sofre com a iluminação nas novelas. Tentei regular a imagem da TV, mas o problema é lá mesmo. A cenografia beira o kitsch e lembra visualmente “Bela, a Feia”, da mesma autora. Até o escritório tem referências do escritório de moda de “Bela”. A caracterização dos personagens não ajuda a compor a idade que dizem que tem. Isabel (Juliana Silveira) e Teresa (Juliana Baroni) – uma profusão de ex-Malhação, ex-angeliquetes e ex-paquitas – tem uma diferença de idade de 7 anos, com Teresa sendo a mais velha. Não é verossímil. Na cena do assalto e do acidente, Diva (Bárbara Borges) e Dóris (Ana Roberta Gualda, gêmeas, tem 16 anos, mas aparentam ser muito mais velhas do que atualmente. São erros primários, toscos.

"Né brinquedo não!": ops, errei a novela
“Balacobaco” não inova. A trama de “sede de vingança” das gêmeas Paranhos chega a beirar o ridículo: Isabel é sequestrada pelas gêmeas, mas escapa do sequestro e as duas batem o carro, causando um grave acidente. O problema é que esse acidente gerou uma cicatriz de interrogação (?) em Dóris e de exclamação (!) em Diva. As gêmeas culpam Isabel pelas cicatrizes. É, no mínimo, bizarro. A premissa é fraca. A motivação da vingança é vazia. Um bom vilão tem de ter uma boa justificativa para as “maldades”. Cicatrizes, veja bem...

A proposta da novela é impossível de ser conhecida. Se “Máscaras” tinha isso bem definido, ainda que não tenha dado certo, “Balacobaco” foi feita às pressas, um tapa-buraco pelo encurtamento da novela anterior. O “humor” da novela não convence: é caricato e é levado ao extremo. Não deve nada ao “Zorra Total”.

No final, o clímax foi interrompido por um clipe que pareceu imagens de vários próximos capítulos e não apenas do próximo. A abertura foi exibida por último e, se taparmos os ouvidos, é digna de nota. É excelente, criativa. Mas a trilha tenta pegar carona no “oi oi oi” de “Avenida Brasil”. Fica na tentativa, é ruim, muito ruim.

“Balacobaco”, segundo a prévia do ibope, deve ter perdido para o SBT, ficando em 3º lugar entre 7 e 9 pontos. Assim que a novela começou, o ibope da Record veio abaixo, de 12 para 7. Se a emissora quis fazer uma novela que honrasse o nome, ela conseguiu. “Balacobaco” é aquele delírio que beira a vertigem, de tão ruim. 

segunda-feira, 30 de julho de 2012

É culpa da Rita


Como não poderia deixar de ser... Sim, o primeiro assunto a ser falado aqui é sobre essa novela infame. “Avenida Brasil” tem causado discussões intermináveis nas redes sociais – assim como aconteceu quando o Corinthians estava na Libertadores. De um lado, os que defendem a vingadora e supostamente justiceira Nina/Rita. Do outro, os que apoiam e sentem dó daquela que é considerada “o baluarte da moral divinense”, Carminha. As duas personagens movimentam a trama da novela de forma que os outros núcleos pareçam meros adereços. Os embates recentes entre as duas mostram que a novela ainda tem o poder de ser destaque nos vários meios de comunicação, ainda que a audiência não seja a mesma de 5, 10 anos atrás. Os hábitos mudaram, mas falar sobre o assunto continua sendo tão mais interessante quanto antes.

As atrizes Débora Falabella e Adriana Esteves tem demostrado total entrega às personagens. O ódio exala em cada uma. Mas o desejo do telespectador é ver o circo pegar fogo, coisa que diminuiu de ritmo nos últimos capítulos. Depois da cena em que Carminha enterra Nina – que, sem dúvida, está no mural das grandes cenas da teledramaturgia nacional – a novela passou a ter um ritmo de seriado. Apenas os confrontos entre as duas é(ra) o que interessa(va). Nina saiu da cova tal como Beatrix Kiddo (ou” A Noiva” de Kill Bill) e partiu para dar o troco. Antes que os “cinéfilos-cults-apaixonados-pela-sétima-arte” que não admitem isso, lembrem-se que o próprio Quentin Tarantino é cheio de referências. Por que uma novela não pode? Ah sim, a novela é do “povo”, por isso é um “sub-produto”. Enfim, isso é assunto para outro dia. Voltando à vingança, Nina passou a semana passada praticamente inteira fazendo Carminha de escrava. Os papeis se invertem, a patroa vira empregada e vice-versa. Na base da chantagem, Nina toma as rédeas e causa um efeito contraditório: as pessoas estão com pena da Carminha! Eu, que acompanho a novela desde o início, não consigo entender, apesar de Carmem Lúcia ser uma das vilãs mais carismáticas.

A pergunta que fica é: qual o motivo dessa novela ser tão discutida? Alguns podem até dizer que é superestimada. E, sinceramente, tem um pouco de razão sim. Vamos aos motivos dessa superstimação:

- Novela, folhetim: “Avenida Brasil” é, primeiramente, uma novela, derivada do folhetim e, portanto, segue essa característica à risca: vilã x mocinha e outros núcleos para adensar a trama, ainda que a mocinha não seja tão mocinha e a vilã idem.

- Tema: é uma trama de vingança. E quantas outras tantas novelas e livros já não trataram do tema: “Insensato Coração” com Norma (Glória Pires), “Chocolate com Pimenta” com Ana Francisca Mariana Ximenes, o seriado “Revenge” e até o clássico “O Conde de Monte Cristo”. Portanto, não é um tema diferente e muito menos mal explorado.

- Tem apelo popular: apesar de discordar veentemente do clichê “nova classe C”, que tem em praticamente todas as novelas, “Avenida Brasil” tem tipos populares que estão no imaginário das pessoas. Tem a piriguete (Suellen), o malandro (Leleco), o ex-jogador de futebol carismático (Tufão)... Sem falar nas empregadas Zezé e Janaína, engraçadíssimas e peças que movimentam de forma direta a trama Nina x Carminha.

- Trilha sonora mais popular ainda: de gosto duvidoso, sim, com alguns rompantes de qualidade. Mas é disso que a massa gosta!

- Elenco de primeira linha: a novela reúne estrelas do primeiro time da emissora, em papeis de vários níveis. Chama a atenção ea entrega da grande maioria do elenco, que mistura veteranos e jovens talentos.

Todos esses movitos já foram vistos em outras novelas, isso é um fato. O que faz então, de “Avenida Brasil”, um sucesso de crítica? Eis os motivos:

- Produção caprichada: nunca antes se viu, em uma novela das 9, uma fotografia e direção de arte de tamanha importância e qualidade. Com referências claras do cinema e seriados americanos, a fotografia ajuda a contar a história de maneira sem igual. É tudo muito bem cuidado, muito bem feito. Repare que na grande maioria das cenas os personagens centrais tem uma luz chiaroscuro. Explico: a técnica italiana renascentista aparece no rosto dos personagens mais densos, com metade clara e metade escura. Uma evidência de que todos os personagens – assim como a vida real – têm nuances de bondade e maldade. Junto a isso, tem a direção de Ricardo Waddington e Amora Mautner. Ótimos.

- Roteiro: João Emanuel Carneiro é, sem dúvida, o grande autor da nova geração. Roteirista de “Central do Brasil” e autor de “A Favorita” (2008), o escritor não precisava mais mostrar a que veio. Mas mostrou. “Avenida Brasil” é escrita de forma brilhante, diálogos costurados, inteligentes. É aí que reside a força da história de vingança já mostrada várias vezes, mas contada e dialogada de outra maneira.

- Força das redes sociais: o público da novela é majoritamente jovem, pois a trama é pesada. Os bordões (como o do título do post) e a "Nina em todos os lugares" viraram páginas no Facebook. Montagens e mais montagens são “tudo culpa da Rita”. Nunca antes foi vista uma mobilização em torno de um capítulo de número 100 de uma novela. A hashtag (só um exemplo) #OiOiOi100 foi tranding topic mundial no twitter – assim como o 101, 102, 103... Os avatares e planos de fundo dos usuários foram “congelados”, tal qual o final dos capítulos.

- Abrangência de público: a novela resgatou um público importante, mas preconceituoso até então. Os homens acompanham a novela tão quanto acompanham seriados (o que não consigo entender a diferença). Um público que talvez tenha percebido só agora que novela não é só “coisa de mulher e viado”. Mas isso é tema para outro dia.

- Concorrência fraca: as outras emissoras não tem o que mostar no horário. SBT e Record comem poeira.

“Avenida Brasil” pode até superar, por pouco, a antecessora (fraquíssima) “Fina Estampa” (do chato Aguinaldo Silva). Mas que é uma nova forma de fazer novela, ah, isso não tem dúvidas.