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segunda-feira, 20 de maio de 2013

"Amor à Vida" mostra São Paulo do jeito que ela é. E consegue


Enquanto “Salve Jorge” se arrastou por sete meses sem grandes reviravoltas, a estreia de “Amor à Vida” trouxe, em pouco mais de uma hora e meia, muito mais do que a turma de Gloria Perez.

O começo acima pode parecer exagerado, mas ficou próximo disso. A estreia de Walcyr Carrasco no horário das 9 começou muito bem. O primeiro capítulo mostrou-se ágil, bem dirigido, com trilha e fotografia voltando aos bons tempos de “Avenida Brasil” e abandonados em “Salve Jorge”. As características de Walcyr Carrasco estão lá: um vilão marcante (Félix – interpretado por Mateus Solano – já mostrou a que veio e muito me lembrou as vilanias e ironias de Cristina – Flávia Alessandra em “Alma Gêmea”, claro que cada um à sua época. Outros, mais saudosistas, dizem que Félix é uma versão de Carminha de “Avenida Brasil”. Não por acaso, Félix é bissexual e mostrou um arsenal de frases de efeito), uma história carregada no drama: Paloma (Paolla Oliveira) é inconsequente, sofredora, abandona a família, é rejeitada pela mãe, tem um irmão invejoso, tem um parto num local imundo, etc, etc, etc e um núcleo de humor em torno de uma família (como não lembrar das famílias de “Chocolate com Pimenta” e “O Cravo e a Rosa”?).

Destaco duas cenas de um capítulo longo: vagando por São Paulo, Ninho (que veio para o Brasil com a ajuda de Félix depois de ser preso por tráfico) e Paloma discutem em um bar, numa das melhores fotografias da novela. Ele vai embora e Paloma tem a filha que espera dele num banheiro imundo, num parto realizado com a ajuda de Márcia (Elisabeth Savalla). Aliás, Paloma escondeu da família que estava grávida, mesmo vivendo sob o mesmo teto. Um tanto fantasioso. No hospital San Magno, onde boa parte da trama vai se passar, a cena do parto e morte de Luana (Gabriela Duarte) foi emocionante, com trilha na medida e muito bem gravada. Além disso, as cenas em Machu Picchu no início da novela também foram bem tratadas, com o conflito se estabelecendo logo nos primeiros minutos: a mãe (Pilar, Suzana Vieira) rejeita a filha, o pai (César, Antonio Fagundes) apoia a filha e causa inveja em Félix, que quer tirá-la do caminho a todo custo e Edith (Bárbara Paz), a esposa complacente com Félix.


A fotografia de “Amor à Vida” é limpa, sem exageros, mas há o retorno de uma câmera na mão constante, ágil, nervosa. Esqueçam as grandes tomadas de paisagens e coisas convencionais. É uma fotografia moderna, com estilo (sim, com um pé nos filmes e seriados). A trilha, que vai desde a música “Maravida”, de Gonzaguinha interpretada toscamente por Daniel na abertura até Charlie Brown Jr, reflete uma São Paulo pouco vista antes na tv: do jeito que ela é. Junto à fotografia e direção de arte, a cidade é mostrada sem exageros ou caricaturas: ali estão os bares e botecos sujos, as prostitutas da Augusta, o centro vazio mas ao mesmo tempo belo, as luzes de neon nos bares... Nada de “cidade cinzenta” ou “contemporânea” e “urbana” (como visto em “Sangue Bom, a das 7). Em “Amor à Vida”, São Paulo se materializa na tela. Outro recurso interessante foi o uso de uma câmera acoplada a Juliano Cazarré quando o personagem Ninho está no aeroporto. O enquadramento permitiu captar todo o nervosismo do personagem.
Do elenco, Suzana Vieira e sua Pilar são mais do mesmo que a atriz já fez na tv: uma mulher rica e impiedosa – lembra a Branca de “Por Amor”. Mateus Solano (Félix) consegue provocar ódio (como quando abandona a filha de Paloma no lixo) e riso (ao filho, Jonatan: “Meu dia está lotado para criança! Se quiser, agenda!” ou à esposa: “Eu salguei a Santa Ceia, só pode ser!” ou à tia: “Tá chamando seu irmão de touro, vão achar que você é a vaca!” ou pior, quando chega no bar que Paloma teve a filha: “Brega!”). No mais, nada de mais. Antonio Fagundes, Malvino Salvador, Juliano Cazarré, Bárbara Paz e Paola Oliveira não comprometem, mas não se destacam. O primeiro capítulo ficou inteiramente focado nesse núcleo, com apenas uma cena da família de Bruno. Uma família grande e tipicamente paulistana: Eliane Giardini volta a viver uma matriarca (Ordália, que lembra um pouco a Muricy de “Avenida Brasil, mas bem mais branda), e o pai de Bruno, Fulvio Stefanini (Denizard), que carrega no sotaque paulista, meu!


Walcyr Carrasco ainda mantém características no seu texto que incomodam: às vezes são explicativos demais ou às vezes o recurso de “falar o pensamento” não se faz mais necessário, quando Bruno encontra a criança abandonada por Félix no lixo e exclana: “Deus me deu uma nova chance!”, forçando a barra. Mas a direção de Wolf Maya é competente, dinâmica: as passagens de tempo foram implícitas pelas cenas (quando mostrou Paloma grávida, ora experimentando roupas, ora fazendo ultrassom), a fotografia e a trilha são um grande acerto e a trama é verossímil numa história que não tem essa pretensão  Ao contrário de “Salve Jorge” que pedia uma trama realista (morro do Alemão e tráfico de pessoas), mas totalmente mal concebida.

“Amor à Vida” estreou com 35 pontos (não consolidados) e repete a estreia de “Salve Jorge”, mas ainda inferior a “Avenida Brasil” (37) e “Fina Estampa” (41). O nome pode remeter a qualquer novela tosca do Manoel Carlos. Mas Carrasco coloca todo o arsenal que consagrou suas novelas (só às 6, pois as das 7 foram bem fracas) e aliada à direção de Wolf Maya, “Amor à Vida” tem tudo para agradar. Menos a abertura, que apesar de contar com o desenhista americano Ryan Woodward (de “Os Vingadores”), é toscamente interpretada por Daniel, mesmo que tenha tudo a ver com o título (De amar, e amar e amar... Vida, vida, vida). 

sábado, 18 de maio de 2013

#VazaJorge

O fim de “Salve Jorge” foi coerente: incoerente do começo ao fim. Os erros – que de tantos, merecem um texto para cada um – sobrepujaram-se à história proposta por Gloria Perez. O “voo” que ela tanto pediu não causou nem um princípio de decolagem.

O último capítulo teve todos os desfechos possíveis e imagináveis, sempre calcados nos erros de produção, questionável direção musical e erros de direção. Algumas coisas foram, boas: o strip-tease de Cláudia Raia, mostrando porque ainda é uma das mais belas atrizes desse país, além de toda desenvoltura ganha em inúmeros musicais estrelados por ela. O desfecho de Wanda foi hilário: virou evangélica na cadeia – lembram-se que no começo da novela os evangélicos “boicotaram” a novela? E só.

O resto foi um festival de confirmações que se arrastavam há sete meses: Giovanna Antonelli e “Donaelô” foi a verdadeira protagonista, a Morena de Nanda Costa foi insuportável, assim como o Theo de Rodrigo Lombardi, e por aí vai. Ah, claro, não podemos esquecer Thammy Gretchen, “achada” numa reta final e Maria Vanúbia (Roberta Rodrigues), que não foi bagunça  anovela inteira. Talvez a única personagem coerente disso que se pode chamar de “novela”.

O telespectador brasileiro foi mal acostumado com “Avenida Brasil”. A qualidade superior de produção e fotografia (totalmente baseada em produções de seriados americanos), a qualidade do texto de João Emanuel Carneiro (ágil, preciso, mas com algumas falhas, é verdade), a qualidade da direção de atores (não havia “canastrões” como Lívia Marine de Cláudia Raia) e a qualidade (e pouca quantidade, ante os 80 de “Salve Jorge”) do elenco fizeram com que o telespectador abrisse os olhos para ver que esse produto tem muito fôlego ainda. “Salve Jorge”, desastrosa, baixou todos esses níveis de qualidade a um nível impensável para uma produção da Rede Globo. Aqui uma galeria com alguns dos erros: http://televisao.uol.com.br/album/2013/05/13/relembre-alguns-erros-de-continuidade-de-salve-jorge.htm#fotoNav=3

“Amor à Vida”, de Walcyr Carrasco, marca a estreia deste no horário das 9. Autor de sucessos das 6 (“Chocolate com Pimenta, “Alma Gêmea”) e das 7 (“Sete Pecados”, “Caras e Bocas”), além do remake de "Gabriela" no ano passado, Carrasco tem tudo para reverter o quadro deixado pela turma da Turquia, do Alemão e de Gloria Perez. As imagens das chamadas já mostram uma novela ágil, com uma fotografia muito superior (mostrar imagens de cartão postal como em “Salve Jorge” é inútil. Coisas da década de 90), número reduzido de personagens (em torno de 40, assim como "Avenida Brasil") e história mais coerente, mas não menos “requentada”: irmão com ciúme da irmã, mãe possessiva, filha rebelde, homem e mulher encontram-se num acaso do destino, casal gay, etc.

“Salve Jorge” termina com a menor média geral entre todas as produções das 9, 34 pontos. Mas será eternamente lembrada pelo modo de como NÃO fazer uma produção audiovisual, seja ela filme, novela ou seriado. E, claro, pela zoação feita infinitamente nas redes sociais. Já "Amor à Vida" estreia ainda com a sombra de "Avenida Brasil".

Mas, depois de "Salve Jorge", o que vier é lucro.

*O título é a hashtag que ficou no topo dos tranding topics mundiais do twitter.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

A hora e a vez da zona norte de SP em "Sangue Bom"


Globo aposta novamente em São Paulo para a novela das 7. Dessa vez acertou em cheio.

A estreia de “Sangue Bom” esteve cercada de expectativa. O fracasso do remake de “Guerra dos Sexos” – média geral de apenas 22 pontos – acendeu o sinal vermelho na emissora. Escrita por Maria Adelaide Amaral (outra especialista em São Paulo assim como Silvio de Abreu, o antecessor) e Vicent Villari, “Sangue Bom” acerta em cheio ao retratar uma São Paulo sem caricaturas (não há nenhuma Mooca para alguém falar “orra, meu!”) e com todas as suas nuances.

A novela é colorida e ágil graças à influência da urban art. Graffiti e flores convivem num abiente geralmente retratado pelo cinza. Sinceramente, não vi clichês da cidade. Talvez por retratar uma região pouco conhecida: a zona norte. Ambientada na Casa Verde (Villari nasceu e morou no bairro), no Jardim São Bento e em outros bairros como o Imirim e o Limão, a novela expõe as diferenças sociais de cada lugar. Uma Casa Verde simples, com características de bairro em que as pessoas ficam na rua e com seus barzinhos de música ao vivo. Há também uma escola de samba (a zona norte conentra o maior número de escolas na cidade), que foi despejada para dar lugar a um empreendimento imobiliário – a zona norte tem um dos maiores booms de crescimento residencial na cidade. Por outro lado, há o Jardim São Bento emergente, rico. Nada de Jardins e Mooca. A cultura urbana se fez presente ainda com o rap e o hip-hop: o rapper Emicida, natural da zona norte, fez uma participação num protesto durante o lançamento do empreendimento – aliás, bem chato, irreal, um flashmob mal feito.

Enquanto “Guerra dos Sexos” exagerou na caricatura e no humor infantil, “Sangue Bom” acerta o tom. O humor é irônico, sutil. Maria Adelaide é experiente no assunto e traz personagens caricatos, mas não esquisitos: a Bárbara Ellen de Giulia Gam promete ser o destaque da novela. As tiradas da atriz decadente que tenta a fama a qualquer custo vão virar memes nas redes sociais. Diz que está “cansada de dividir pinça e cremes com um metrossexual” quando está se separando do jovem Jonathan James, um garotão que enriqueceu as custas do casamento com a atriz. Convoca a imprensa para divulgar a separação e um dos filhos adotivos diz: “a mídia adora uma vítima”. O ponto máximo foi quando Bárbara fala da traição de Jonatan com Brunetty (Ellen Roche, perfeita para o papel): “eu quero ver a cara de cu...íca daqueles dois!”. Esses tipos estão aí, aos montes, despejados em sites e revistas. É uma crítica bem humorada, sem ser canhestra ou ofensiva.

O elenco de protagonistas é jovem e garante bons momentos. Sophie Charlotte (Amora, a itgirl, adotada por Bárbara) é fútil como a mãe, mas é o grande amor de Bento (Marco Pigossi), criados no mesmo orfanato na Casa Verde. Ele é pobre e ela está de casamento marcado com Maurício (Jayme Matarazzo). Giane (Isabelle Drummond) é a doce maloqueira, também apaixonada por Bento e criada no orfanato. Malu (Fernanda Vasconcellos) é apaixonada por Maurício, noivo da irmã Amora, já que é filha legítima de Bárbara – e é rejeitada. O rebelde Fabinho (Humberto Carrão) também vem do orfanato, mas foi para o interior onde vive com a mãe, outrora rica por causa do pai. Além desses, o elenco tem estrelas como Malu Mader, Letícia Sabatella, Marco Ricca, Herson Capri, Regiane Alves, Felipe Camargo, Yoná Magalhães, Daniel Dantas, Louise Cardoso, Deborah Evelyn, Ingrid Guimarães e Marisa Orth, voltando aos bons tempos de humor como a ex de Wilson (Marco Ricca). Como é possível ver, o elenco é grande: 64 personagens.

A trilha sonora consegue fazer um mix da atual São Paulo: samba, pagode, rap e hip-hop, dando voz aos guetos da cidade. No primeiro capítulo a trilha foi jogada aos ouvidos, sem miséria. A abertura fica por conta do fraco Sambô, com uma releitura de “Toda Forma de Amor”. Como não poderia deixar de ser, a abertura é colorida, com floriais, abusa dos grafismos e da modernidade para retratar um jovem conectado, cosmopolita, urbano.

O primeiro capítulo não mostrou todos os personagens e nem o potencial daqueles que podem fazer barulho, como a corintiana Giane. Foi ágil e tem fôlego para muito mais. Mas mostra que é possível ver uma São Paulo que vai além dos clichês Mooca e Jardins, que existe São Paulo além desses bairros. E eu, como morador da zona norte e nascido na Casa Verde, é um prato cheio. Segundo a prévia no Ibope, atingiu 26 pontos com picos de 28, abaixo da estreia de “Guerra dos Sexos” (28) e ainda abaixo da meta (30).

“Sangue Bom” não tem muitas pretensões. É um bom produto, mas parece que ainda falta alguma coisa. É tudo muito bonito, tudo lindo, como se todos os personagens vivessem em harmonia. Falta “sangue”, porque de “bom” já basta a zona norte.


sexta-feira, 22 de março de 2013

E, de novo, a melhor novela é a das 6

Depois de tirar algumas conclusões precipitadas de outras novelas ao analisar somente o primeiro capítulo, esperei duas semanas para falar de “Flor do Caribe”, a nova novela das 6. E tive sorte.

“Flor do Caribe” é a melhor novela no ar atualmente. Elenco afiado, fotografia deslumrante e história bem costurada. O experiente autor Walther Negrão sabe o que faz e lá estão todos os elementos de suas novelas: casais jovens, bonitos, lugares deslumbrantes e um texto leve, próprio do horario. Jayme Monjardim é o diretor e claro, lá estão suas tomadas amplas, paisagens mostradas numa imensidão de cores e beleza.

O elenco é formado por grandes atores. Laura Cardoso, Sergio Mamberti, Juca de Oliveira, Luis Carlos Vasconcellos, Cacá Amaral, Bete Mendes e Angela Vieira são destaques. O Dionísio Albuquerque de Sergio Mamberti é o destaque da novela. Há um tempo afastado, Mamberti só reiteira o quão grande ator é. Laura Cardoso e sua Veridiana parecem saídas de “Gabriela”, só faltando falar “é tudo quenga!”. Juca de Oliveira interpreta o judeu Samuel, que fugiu dos horrores do holocausto quando criança, numa das melhores historias da novela. Além disso, ainda há uma ligação misteriosa no passado de Dionísio e Samuel. Nessa lista de veteranos há ainda Aílton Graça, Rita Guedes e Jean Pierre Noher. A novela ainda contará com Débora Escobar, que viverá um romance com um garoto bem mais novo (Bruno Gissoni).

Ao lado deles, um elenco de jovens protagonistas, com Grazi Massafera, Henri Castelli e Igor Rickli. Esther (Grazi) é a típica mocinha sofredora enganada pelo vilão. A atriz se mostra cada vez melhor e mais madura na frente das câmeras. Cassiano (Henri) é o par romântico, enganado pelo vilão que se diz seu amigo. O ator é o pior dos três, com um desempenho um tanto “canastrão”. Beto (Igor) é o vilão que faz de tudo para ter Esther ao seu lado. Estreante em novelas, Igor Rickli não precisa de muito esforço para demostrar o cinismo do personagem: apenas com as expressões, fica fácil saber o quão dissimulado é.  Completam o elenco Raphael Vianna (faz Hélio, outra história interessante na novela, o conflito entre pai – Donato, personagem de Luis Carlos Vasconcellos – e filho), Buno Gissoni, José Loreto (um dos destaques da novela com o “abestalhado” Candinho), Débora Nascimento, Dudu Azevedo, Max Fercondini e Thiago Martins.

Acima, Rio Grande do Norte. Abaixo, Guatemala. Um convite
visual para uma historia bem costurada.

“Flor do Caribe” é um deleite visual. Imagens paradísiacas do Rio Grande do Norte e do Caribe são mostradas sem dó. A história já foi vista em outras novelas, mas a embalagem aqui é muito melhor. Estreou com apenas 18 pontos, já que tem a missão de reerguer os índices deixados pela ótima “Lado a Lado”. Em sua 2ª semana, já atingiu 21 pontos. A história tem fôlego, tem apelo visual (pelo elenco e paisagens) mas ainda peca no ritmo lento típico de novelas das seis.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Pé na Cova: subersivo sem ser ofensivo


Miguel Falabella volta com humor renovado – ainda que com traços de outras obras – e subversivo, sem apelações.

“Pé na Cova” estreou ontem e mostrou o que o autor e ator sabe fazer de melhor: seriados. Junto com a equipe de roteiristas (Artur Xexéo, por exemplo) e com direção da parceira de longa data, Cininha de Paula, o seriado tem tudo para cair no gosto popular.O elenco mistura figuras conhecidas (o próprio Falabella, Marília Pêra), com outras menos conhecidas (Daniel Torres, o filho Alessânderson, já trabalhou com Falabella em "Toma Lá Dá Cá" e Karin Hils, ex-Rouge, só para citar alguns exemplos.


O elenco: tipos esquisitos




Falabella volta com a empregada burra (Adenóide, vivida por Sabrina Korgut é a nova Bozena) e casais quem convivem juntos – ou separados –, colocando um pé no seriado anterior, “Toma Lá Dá Cá”.  Mas isso não compromete o fio condutor da história. O primeiro episódio preocupou-se em mostrar esquisitos personagens, como que um cartão de visitas para uma trama que, por enquanto, parece uma incógnita. Uma família que comanda uma funerária pode soar estranha, mas o seriado nos mostra como algo comum, como parte de nossa realidade. Claro que pessoas morrem todos os dias, mas o seriado recorre aos problemas típicos da maioria dos brasileiros como pano de fundo: o problema no crediário, os problemas com os filhos, com a ex-mulher, etc. E tudo isso regado a um humor que não chega a ser negro, mas subverte tudo o que temos visto na tv – principalmente na Globo, conservadora por natureza.

Os mortos são assaltados por uma bêbada Dolores (Marília Pêra) que faz a maquiagem dos “presuntos”. A filha Odete Roitman (Luma Costa) faz strip na webcam e os pais tem orgulho, além de namorar com Tamanco (Mart’nália), portanto, é lésbica – aproveitando-se da condição da cantora. O filho Alessânderson (Daniel Tores) quer ser político, mas é burro. Um travesti Marcão (Maurício Xavier) que se transforma em Markassa, irmão de Tamanco. O preto é preto e não “negro”. No crediário, pedem uma “ficha criminal”, preconceito puro. E, no exemplo mais audacioso, com um pé na pedofilia, Ruço (Miguel Falabella) namora Abigail (Lorena Comparato),uma garota de 19 anos que carrega um ursinho. Em todas essas situações, o seriado faz questão de deixar claro que sim, quer colocar o dedo na ferida. Mas tudo isso sem ofender, sem exagerar. O primeiro episódio garantiu boas risadas e alcançou 17 pontos no ibope, satisfatório para uma véspera de feriado em São Paulo.

“Pé na Cova” mostra que a tv pode ser menos careta, ser subversiva, sem perder a qualidade e o principal: o bom humor.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

"Doce de Mãe", simples e brilhante


E é necessário esperar 362 dias para assistir a um dos melhores produtos exibidos na tv em 2012: o telefilme – coisa rara e necessária na tv brasileira – “Doce de Mãe” fecha o ano com chave de ouro.

O estilo de Jorge Furtado, o diretor, está lá: narrações em off, câmeras com tomadas tradicionais, texto às vezes autoexplicativo demais e, claro, alguma cidade do sul do país – Furtado é gaúcho e é dono da Casa de Cinema Porto Alegre, que produz o filme. Mas há ali algo de diferente. Furtado jamais tivera trabalhado com Fernanda Montenegro. E aí que o bicho pega.

Uma senhora de 85 anos demite a empregada e decide viver sozinha, para desespero – e disputa – dos quatro filhos. Um joga para o outro e, no meio disso tudo, Picucha – o doce de mãe – se envolve em várias confusões. É uma deliciosa comédia e Fernandona brilha de tal maneira que é impossível não se render a essa doce mãe. É como se fosse uma mãe nossa, uma avó nossa. Os personagens são muito próximos da nossa realidade, o que contribui para a identificação do espectador.


Fernanda deita e rola no telefilme. A ação é toda concentrada nela e o gás de Picucha parece interminável. Os filhos, formado por um elenco tão estelar quanto Fernanda – Marco Ricca, Louise Cardoso, Matheus Nachtergaele, Mariana Lima, além da participação de Daniel de Oliveira – fazem do telefilme algo totalmente aberto para desenvolver-se na TV. Como já disse Jorge Furtado, o telefilme pode virar serie, só depende da disponibilidade do elenco – leia-se de Fernanda.

Acho essa possibilidade difícil. O elenco é estelar demais para reunir-se novamente e por um período mais longo. Não sei se isso é ruim. “Doce de Mãe”, em minha opinião, é daqueles produtos únicos, que se continuar, pode estragar. É pra ficar na memória, ser visto e revisto. A genialidade de Fernanda, juntamente com o elenco são sufucientes para deixar marcas em quem assistiu. Além disso, não acho Jorge Furtado um bom diretor para tv, apesar de alguns trabalhos. Na verdade, nem de cinema (apesar dos sucessos “Meu Tio Matou um Cara” , “O Homem que Copiava” e o clássico “Ilha das Flores”), mas aí já é uma opinião minha.

De todas as qualidades do telefilme, jamais imaginei rir com Fernanda. Um preconceito bobo, mas totalmente esvaziado quando, ao ver um lance de um jogo de futebol, Picucha manda um “VAI PRA CASA DO CACETA!”. Mas Fernanda e o elenco garantem a emoção ao cantar “Juízo Final” em uma das cenas. Só assistindo para entender.

Essa é a “Doce de Mãe”. Essa é Fernanda Montegero.

domingo, 16 de dezembro de 2012

A voz para o "The Voice Brasil"


"The Voice Brasil", além de mostrar o que há de melhor na música brasileira - um musical de verdade - trouxe um Tiago Leifert melhor que aquele apresentador esportivo piadista sem-graça. E Ellen Oléria não vai vender. Ela é boa demais pra ser popular, é outro nível.

 

A primeira temporada do The Voice Brasil – com uma segunda já garantida para 2013 – mostrou todo o potencial que é possível ter em música no Brasil. Pelo menos 20 cantores e cantoras que passaram por ali poderiam ganhar facilmente o programa, tamanha a qualidade musical. O reality foi um prato cheio para a boa – ótima – música brasileira. Apresentações de candidatos memoráveis, assim como a dos convidados especiais - Sergio Mendes no final coroou esse programa.

Apesar de não ser um fenômeno de audiência – em torno dos 13, 14 pontos –, alavancou a audiência do horário. Nas redes sociais, o reality fez certo sucesso, já que o uso foi constante durante o programa com mensagens exibidas nas apresentações. 

O The Voice Brasil também mostrou um Tiago Leifert seguro, diferente daquele sem-graça apresentador do Globo Esporte. É o novo showman da tv brasileira. Emitindo juízos para os cantores e mostrando uma empatia com outros, Leifert teve total liberdade para dar opiniões. Interessante, já que nesse tipo de programa “tudo é lindo e maravilhoso”.

Os jurados, em seus variados estilos, levaram candidatos com características que lhe eram parecidas. Daniel se mostrou um técnico fraco, com o time mais fraco em relação aos outros técnicos – com exceção da finalista Liah Soares, Alma Thomas e Daniel Meirelles. Lulu Santos contou com o time mais equilibrado – Késia Estácio, maravilhosa; e o que falar de Marquinho OSócio? – e Cláudia Leitte o mais água com açúcar – Thalita Pertuzatti e Ju Moraes, as duas finalistas do time, estão fora dessa, são incríveis. A supresa ficou com o percussionista – mais que cantor – Carlinhos Brown, que montou um time poderoso. O próprio Leifert reconheceu quando, duas semanas atrás, disse que os 4 que disputavam no time de Brown poderiam estar tranquilamente na final. Desse time saíram cantoras na glória de sua música: Quésia Luz, Mira Callado, Ludimillah Anjos – PÁH! – e a vencedora, Ellen Oléria.

Ellen Oléria pode sofrer de um mal que acomete vencedores de reality shows musicais: tem um grande potencial vocal – ela, entre todos os cantores, faz jus ao título do programa – mas não tem poder de venda, vide Vanessa Jackson, vencedora do “Fama 1” da mesma Rede Globo. Ellen Oléria é boa demais, não há dúvida. Mas não há um apelo popular que poderia ser explorado como em Ludmillah Anjos (PAH!) ou Ju Moraes, por exemplo. Ellen Oléria é outro nível, é música de qualidade. E bem sabemos que, ainda, música de qualidade não é para as massas. Conta a favor o fato de o contrato ser com uma gravadora fora do domínio global – a Universal – e a maior abertura para participar de outros programas.

Se a intenção era escolher “a” voz, o programa conseguiu. Ellen Oléria é a potência em pessoa. Tomara que essa potência se transforme em vendas.

domingo, 9 de dezembro de 2012

"Esquenta!": caricatura de algo que não existe



O "Esquenta!" com a Regina Casé tem a capacidade de subestimar a "pobreza". O que se vê é algo que não existe. O visual beira o ridículo e Regina insiste na imagem "sou do povo". A ideia do programa é ótima, desde sempre. Mas como é mostrado, é um erro.

Tudo ali é uma caricatura, um carnaval mal feito numa festa pseudopobre. O que era pra ser uma festa no quintal ou um churrasco com muito samba, suor e cerveja se torna algo brega, ralo, feio.

Regina Casé e a caricatura de algo que não existe
Mas a capacidade de comunicação de Regina Casé é incrível. Ela dialoga com as massas como poucas, criando empatia ou repulsa. O jeito popular se mostra na entrega da apresentadora, mas há quem diga que é apenas uma atuação. Muito boa, diga-se de passagem.

O fio condutor do programa é o samba, claro. A ideia inicial, desde a primeira temporada era “esquentar” para o carnaval, mas agora se estendeu e ficará por sete meses no ar devido ao sucesso. Me soa como um “tapa buraco”, já que o programa do Didi saiu da programação e “Os Caras de Pau” está em vias de sair também. Pode ficar exaustivo e repetitivo, já que a proposta do programa é fixa, com um conceito imutável. 

Mas o “Esquenta!” não é só samba com Arlindo Cruz, Leandro Sapucahy, Mmumuzinho, Thiaguinho e Péricles. Os Paralamas do Sucesso marcaram presença na estreia e Regina fez merchandising social com deficientes físicos – aproveitando a presença do vocalista dos Paralamas, Herbert Vianna, paraplégico. 


De frente com a presidente: é tudo muito lindo no Brasil




O ponto alto da estreia foi dividido em “pílulas”: a entrevista com a presidente Dilma Rousseff foi mostrada aos poucos, relacionando depoimentos de Dilma com os assuntos que eram tratados no momento pelos cantores para depois exibir no último bloco a conclusão da entrevista. O palanque eleitoral, claro, é inevitável. Mas é uma boa estratégia para segurar a audiência.

O programa tem ritmo, tem unidade, pelo menos nessa estreia que intercalou as entrevistas de Dilma com as atrações do programa. Regina Casé, claro, manteve o estilo inconfundível de puxa-saco com todos os convidados. Afinal, "o que o mundo separa, o Esquenta junta!". 
 
Algo curioso nessa estreia: Regina Casé recebe flores do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso pela estreia do programa e solta um sonoro "Que chiqueee!". E antes Preta Gil cantou uma música de preconceitos... Enfim, só uma observação irônica.

Para um programa que se propõe sem preconceitos, acho que é preciso rever algumas coisas.