quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Suor, sangue e lágrimas - e um pouco de recalque


O torcedor medíocre, além de não cuidar só do próprio time, vive do desmerecimento dos outros. Simples assim, seja qual for a competição.

O São Paulo volta a erguer a taça, coisa que não via desde 2008. A partida contra o medíocre time argentino tigre (com letra minúscula mesmo) ficará na história do futebol pelo abandono covarde do time visitante, que no segundo tempo desistiu de jogar (na bola, pois com eles é no braço) quando o São Paulo ganhava por 2 a 0, gols de Lucas e Oswaldo.

O torcedor tricolor viu a despedida emocionante de Lucas, que teve a bracadeira de capitão posta no braço pelo goleiro Rogério Ceni, numa das atitudes mais emocionantes e marcantes no futebol brasileiro. Só lamentos para Luís Fabiano que ficou à espreita e não pôde ter a glória de subir no tótem e erguer a taça. Fica a lição de como se constrói um ídolo, ainda que este seja apenas um jogador ainda em formação, não chegando a ser um craque.

Um título especial para o trabalho de Ney Franco, que conduziu o time à conquista. O treinador montou um time equilibrado, sem brilhantismos, mas eficiente para ganhar uma Copa Sul-Americana invicta e fazer uma boa campanha no segundo turno do Brasileirão. O título é, em grande parte, de Ney Franco.

Aí, claro, vem o desmerecimento dos rivais. Aqueles que “antis” (com o perdão do trocadilho) falavam que só cuidavam do próprio time, hoje desmerecem o título do São Paulo, como se este fosse o culpado. Outros, em menor situação, recorrem ao passado, mesmo que o futuro seja um lixo, de “segunda” linha. E o resto, recalque puro. Acusar o São Paulo é fora de propósito, que jogou na bola e no pé. E enquanto houver esse desmerecimento - o que alguns dizem que é "humor" - o futebol sul-americano continuará assim, sem ser levado a sério.

Não se sabe o que aconteceu no vestiário do time argentino. Antes do jogo a organização do São Paulo impediu os visitantes de treinarem no campo – o tricolor alegou que o campo não tinha condições boas pois houve show na semana anterior – o que, do ponto de vista lógico serviu para preservar o campo para o jogo. Espaço, como sempre, os visitantes tem atrás do gol para treinar. Mas, mesmo assim, invadiram o campo. O jogo, como quase todo mundo viu, foi aquele festival de catimba e violência argentina, algo costumeiro. O São Paulo marcou os dois gols, Lucas tomou uma cotovelada, sangrou. Acabou o segundo tempo e aí... Medo, revolta, dizem até que a polícia e os seguranças do São Paulo agrediram os jogadores, ameaçando com armas. O sangue nos vestiários e a baderna encontrada não são provas, que, aliás, podem ser uma grande armação. Me de imagens, como diria Datena.  A comissão do tigre diz que tem as imagens. O que se diz também é que os jogadores do tigre queriam invadir o vestiário tricolor para tumultuar e os seguranças impediram. Agora, me diga: os seguranças ficariam inertes àquela situação? Deixariam os argentinos invadirem sem tomar nenhuma atitude? Simplesmente deixariam a confusão rolar? É óbvio que teria que usar a força. Culpar o São Paulo por isso é puro recalque.

Não era uma goleada. Não era um jogo incrível. Mas, essa é a escola argentina, que vai do genial Messi à esse anti-jogo, uma atitude anti-desportiva, baixa, e todos os piores adjetivos possíveis. Cabe aqui, muito bem, um banimento em competições internacionais. Se bem que isso talvez possa demorar um pouco, falando bem a verdade...

2013 aponta um grande ano para o futebol brasileiro, especialmente o paulista. O trio de ferro paulista disputará a Libertadores – além de ter ganho um título cada um até o momento – e ainda teremos a Recopa entre Corinthians e São Paulo. 


Prato cheio para quem gosta de futebol.

domingo, 9 de dezembro de 2012

"Esquenta!": caricatura de algo que não existe



O "Esquenta!" com a Regina Casé tem a capacidade de subestimar a "pobreza". O que se vê é algo que não existe. O visual beira o ridículo e Regina insiste na imagem "sou do povo". A ideia do programa é ótima, desde sempre. Mas como é mostrado, é um erro.

Tudo ali é uma caricatura, um carnaval mal feito numa festa pseudopobre. O que era pra ser uma festa no quintal ou um churrasco com muito samba, suor e cerveja se torna algo brega, ralo, feio.

Regina Casé e a caricatura de algo que não existe
Mas a capacidade de comunicação de Regina Casé é incrível. Ela dialoga com as massas como poucas, criando empatia ou repulsa. O jeito popular se mostra na entrega da apresentadora, mas há quem diga que é apenas uma atuação. Muito boa, diga-se de passagem.

O fio condutor do programa é o samba, claro. A ideia inicial, desde a primeira temporada era “esquentar” para o carnaval, mas agora se estendeu e ficará por sete meses no ar devido ao sucesso. Me soa como um “tapa buraco”, já que o programa do Didi saiu da programação e “Os Caras de Pau” está em vias de sair também. Pode ficar exaustivo e repetitivo, já que a proposta do programa é fixa, com um conceito imutável. 

Mas o “Esquenta!” não é só samba com Arlindo Cruz, Leandro Sapucahy, Mmumuzinho, Thiaguinho e Péricles. Os Paralamas do Sucesso marcaram presença na estreia e Regina fez merchandising social com deficientes físicos – aproveitando a presença do vocalista dos Paralamas, Herbert Vianna, paraplégico. 


De frente com a presidente: é tudo muito lindo no Brasil




O ponto alto da estreia foi dividido em “pílulas”: a entrevista com a presidente Dilma Rousseff foi mostrada aos poucos, relacionando depoimentos de Dilma com os assuntos que eram tratados no momento pelos cantores para depois exibir no último bloco a conclusão da entrevista. O palanque eleitoral, claro, é inevitável. Mas é uma boa estratégia para segurar a audiência.

O programa tem ritmo, tem unidade, pelo menos nessa estreia que intercalou as entrevistas de Dilma com as atrações do programa. Regina Casé, claro, manteve o estilo inconfundível de puxa-saco com todos os convidados. Afinal, "o que o mundo separa, o Esquenta junta!". 
 
Algo curioso nessa estreia: Regina Casé recebe flores do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso pela estreia do programa e solta um sonoro "Que chiqueee!". E antes Preta Gil cantou uma música de preconceitos... Enfim, só uma observação irônica.

Para um programa que se propõe sem preconceitos, acho que é preciso rever algumas coisas.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Depredação no aeroporto nenhum corinthiano compartilha...

"Só eles fazem isso", diz o rival cego e esquecido.
...e são-paulinos esquecem (eu, pelo menos, não) da depredação da Paulista em 2005 (Libertadores) e palmeirenses esquecem do vandalismo no Pacaembu este ano. A manchete tinha que continuar, mas ficaria muito extensa.


O texto a seguir pode parecer chapa-branca, com a velha - e inexistente -  ideia do "jornalismo imparcial", com a conotação de puxa-saco, e por aí vai. Mas não, estimado leitor. É apenas uma constatação simples.

Fazia tempo que eu não falava sobre futebol nesse espaço, mas a chegada do Mundial de Clubes e os recentes acontecimentos me forçaram a escrever, já que as redes sociais não me permitem fazer uma reflexão maior sobre o assunto.

Pois bem. O Corinthians embarcou ontem para Dubai, local da preparação para o Mundial. Aproximadamente 17 mil corinthianos lotaram o Aeroporto de Guarulhos para festejar e despedir-se dos jogadores, que embarcaram pela madrugada. Festa, muita festa. Algo típico da torcida corinthiana e, veja bem: isso não é uma crítica.

A festa terminou, os festejos no Facebook foram aos montes e aí, os rivais se aproveitaram da situação para expor suas glórias passadas: “o meu time juntou tudo isso em 2005. O meu time lotou a livraria”, e por aí vai.  Junte a isso a depredação no aeroporto. Pronto. Prato cheio para os rivais debocharem da torcida corinthiana – cunhando com os mesmos adjetivos pejorativos de sempre. Não vejo problema na euforia corinthiana. Uns falam em superioridade. É, pode até ser por parte de alguns. Mas num momento como esse, é tão natural que isso aconteça quanto a festa do São Paulo na conquista do mundial em 2005. Pela primeira vez vão disputar um Mundial “do jeito certo”. E não, a torcida corinthiana não é diferenciada. Só a concentração de fanatismo que é maior, isso não há dúvidas. “Diferenciada”, que seja por isso, mas não por outro motivo. A superioridade começa quando o fanatismo deixa guiar. 

Mas aí a nuvem da hipocrisia paira por todos os lados: corinthianos que – com toda justiça e direito – se gabam de ter levado 17 mil pessoas a um aeroporto (chega a ser mais gente que um estádio, é bem verdade) e os rivais palmeirenses e são-paulinos compartilhando aos montes a foto da depredação - o que, de fato, é condenável. O curioso é que, esses mesmos tricolores esqueceram (eu não esqueci) que os torcedores depredaram a Avenida Paulista na “comemoração” pela conquista da Taça Libertadores em 2005, num dos maiores casos de vandalismo já vistos no local. Veja aqui: http://www1.folha.uol.com.br/folha/esporte/ult92u91703.shtml e aqui http://esportes.terra.com.br/futebol/libertadores2005/interna/0,,OI592325-EI4588,00.html E os palmeirenses, recentemente, depredaram o Pacaembu. O problema é que, se fosse o São Paulo ou qualquer outro time, corinthianos estariam "compartilhando fotos" da mesma maneira. Um não pode ser pretexto para o outro. O grande problema é que a maioria dos torcedores pensam pequeno e aí, amigos, a merda está feita.

O futebol é um prato cheio para o deboche de rivais. E da imprensa também, para o bem e para o mal. Um dia é reportagem exaltando o representante brasileiro (aham, tá!) no mundial. No outro é esculachando os torcedores vândalos e inconsequentes que foram ao aeroporto. O que dizer do depoimento anônimo nessa reportagem: http://esporte.uol.com.br/futebol/ultimas-noticias/2012/12/04/aeroporto-tem-manha-tranquila-mas-comerciantes-reclamam-de-atos-de-vandalismo-de-corintianos.html
“Se eles soubessem que aqui dentro estava cheio de panetone acho que teriam arrombado aqui e levado tudo”. É assim que funciona, em qualquer time.

E quem ler esse texto pode achar que sou torcedor do Corinthians. Muito pelo contrário. Quero que o Corinthians volte bem cedo, na manhã no dia 12/12/12 especificamente – dia que o São Paulo será campeão da Sulamericana, aliás! 

Esse ano aprendi com o futebol. Aprendi que não vale a pena discutir sobre torcida, sobre importância de títulos. É a velha história do “meu pau é maior que o seu”. Bobagem. Aprendi a discutir sobre o que realmente vale a pena, e mais ainda: com quem realmente vale a pena. E mais: o futebol seria bem melhor se tivesse menos hipocrisia. Seria bem melhor se a rivalidade ficasse mais restrita às quatro linhas (afinal, para o bem de todos, é necessário uma piada aqui e outra ali). 

Seria bem melhor se cada um cuidasse do seu time. 


quinta-feira, 29 de novembro de 2012

PM em crise: chama o Datena - ou qualquer outro


Não, não vou falar sobre a negociação do Datena, o assunto já deu o que tinha que dar. Ele até se arrependeu, coitado. O título é só um adendo ao que acontece com a Polícia Militar de São Paulo. O assunto é outro. Na edição da semana passada da revista Época, uma reportagem me chamou a atenção. Com o título “Cinco histórias de violência”. Não é surpresa saber o conteúdo: a onda de violência que toma o estado de São Paulo. Vítimas para todos os lados. Policiais, bandidos e pior, inocentes. A reportagem trata de apenas um lado: cinco histórias de policiais mortos, em serviço ou não, e tudo o que fizeram em vida e o lamento dos familiares.

Não quero questionar o trabalho de reportagem. Mas me incomoda – e acredito que grande parte da população – a ode que a imprensa faz para a polícia. É impressionante como a imprensa tem encarado essa situação. Como se a polícia fosse a grande vítima dessa história toda. E sabemos que não é bem assim.
Seria tolice minha também dizer que “toda a polícia não presta”. É como dizer que todo muçulmano é terrorista. Mas estamos falando de uma corporação. Uma corporação pública, que nós sustentamos com nossos impostos. Um pode representar todos, afinal todos estão sob uma mesma farda.

Polícia antiquada e despreparada, mortes a rodo.
A reportagem conta, de maneira dramática, o que os policiais faziam com suas famílias e no trabalho e como foram – brutalmente – mortos. É aquela velha história: quando morre, a pessoa vira santa. Provavelmente todos esses policiais da reportagem são vítimas de um sistema que outros colegas corromperam. Esses da reportagem são “de bem”, incluídos em mais estatísticas. Além disso, a matéria nos conta que o combate ao crime passou para a Polícia Militar, substituindo uma tropa de elite criada no DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa). Mudança promovida pelo incompetente Geraldo Alckmin. Veja bem, a despreparada PM passou a combater o crime. A continuação dessa história já sabemos.

A polícia carece de credibilidade: a PM de São Paulo não é das mais confiáveis – herança maldita da ditadura – e não combate o crime com eficiência que deveria ter. O povo vira refém dos bandidos e pior ainda, da polícia. O recente caso de PMs que mataram um suspeito, com imagens exibidas em rede nacional por um cinegrafista amador, chocaram e colocam mais em xeque ainda o trabalho desa polícia que sim, mata aleatoriamente.

Os conservadores vão dizer: “mas quando o bicho pega, o povo chama pela polícia”. Claro, afinal essa é a obrigação deles. Pagamos por isso. Mas é direito de todo cidadão clamar por mais segurança e eficiência, ausentes hoje.

Em resumo, não é surpresa o despreparo da polícia, que se submete a chamar o Datena para mediar uma negociação de sequestro.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

"Suburbia": horário ingrato para o melhor de 2012



A Globo tem nas noites quinta feira duas series, já em seus 4 episódios exibidos: “Como Aproveitar o Fim do Mundo” e “Suburbia”. “Como Aproveitar O Fim do Mundo” é a primeira a ser exibida. Escrita por Alexandre Machado e Fernanda Young – de “Os Normais”, a última série boa que escreveram -, a serie conta a historia de Ernani (Danton Mello) e Kátia (Alinne Moraes) e todas as peripécias para aproveitar a vida até o dia 21 de dezembro de 2012,  o fim do mundo para os maias. 

 Clichês baratos, frases sem sentido e um humor questionável permeiam a serie. Mesmo assim os autores trazem uma melhora em relação à sem graça “Macho Man”. O que segura a serie é a ótima interpretação de Alinne Moraes, mesmo forçadíssima – o que realmente deve ser, afinal ela é uma louca que acredita no fim do mundo e quer fazer tudo o que nunca fez, enquanto Ernani é um “solteiro de 30 anos limpinho”. Kátia ajuda Ernani a realizar todos os desejos que ele não realizou no sexo, na vida, no trabalho...

Kátia e Ernani: aventuras nonsense não garantem graça
“Como Aproveitar o Fim do Mundo” não traz novidade, mas não compromete. Os autores mantem o mesmo humor nonsense de outras series, Danton Mello mantém os mesmos tiques de outros personagens, os clichês de arrependimento e fim do mundo estão lá e Alinne Moraes se sobressai em relação ao parceiro de cena.

Conceição (Érika Januza): samba, funk e Madureira
A segunda serie – o que é uma pena, pois merecial um horario melhor –“Suburbia” mostra o que Luis Fernando Carvalho – de “Hoje é Dia de Maria”, “A Pedra do Reino”, “Capitu” e “O que querem as mulheres?” – sabe fazer de melhor, ao mesmo tempo em que se reinventa. As obras anteriores eram “classudas”, sem apelo popular. Suburbia é o oposto de tudo isso: favela, samba, povo, drama e humor. Como que num documentário, retrata a vida de Conceição – mais tarde, Suburbia – uma jovem que sai de minas de carvão em Minas Gerais e parte para o “sonho” do Rio de Janeiro. Mas ela o sonho, em alguns momentos, tornam-se pesadelos:  menina negra que cai numa cilada, é presa, sofre na prisão de menores e foge, sofre estupros, sempre fugindo. Mas isso não impede a poesia das cenas, principalmente as que mostram a religiosidade dos personagens. Os atores são “não-atores”, o que aumenta o desafio mas não compromete a qualidade. Érika Januza, a protagonista, é tão boa – ou melhor – que muitas atrizes por aí. 
Ainda tem Jéssica (Ana Pérola), a antagonista de Suburbia, a "rainha do baile", até a chegada de Conceição. Ana Pérola é o retrato da inveja, personificada numa mulher forte e impetuosa. Ana Pérola brilha, assim como Érika Januza.

Jéssica (Ana Pérola) em "Suburbia"
Impossível não lembrar “Cidade de Deus”, até porque Paulo Lins – escritor do livro que deu origem ao filme – também escreve “Suburbia”. As favelas e problemas sociais estão lá e claro, não podia faltar a câmera na mão frenética. Outra referência é o cinema blaxplotation, que Tarantino já usou em “Jackie Brown”: mulher negra, música negra, problemas sociais. Mas Luis Fernando Carvalho imprime seu estilo na fotografia, quente, e na condução das cenas dramáticas. Cenas que, desde Capitu, são catárticas: em várias cenas pesadas, por exemplo quando Conceição é estuprada pelo namorado da patroa no primeiro episódio. Enquanto isso toca um romântico Roberto Carlos. 

Suburbia, sem receio algum, é a melhor coisa que a Globo fez em 2012.