quarta-feira, 12 de junho de 2013

Um erro

fotomontagem Rolet20conto
Retiro (quase) tudo o que está dito na postagem que vem logo depois desta.

Mantenho o texto pois já está publicado. Lido por não sei quem. Mas publicado.

No mesmo espaço que uso para falar o que penso, quero usá-lo para falar que mudei o que pensava.

Não é uma "juventude imbecil e inconsequente". Temos, claro, os laranjas podres. Como em qualquer organização. Nesse texto, o outro lado da manifestação: http://papodehomem.com.br/o-protesto-que-eu-nao-vi-pela-tv/

Talvez não seja um "bando" de estudantes.

Mas ainda acho que quem não mostra a cara, algo de errado está fazendo.

E sim, a tarifa é alta. Os vinte centavos (ou dez para estudantes que pagam meia) de aumento soam como uma afronta ao serviço que é prestado. A palavra é: aumento. Esse é o problema, e não necessariamente o valor. Não só em São Paulo, mas em várias outras capitais.

Os vinte centavos são máscara que esconde outros problemas: corrupção, abusos de poder, desvios, má educação oferecida nas escolas, serviços de saúde ineficientes, violência, etc.

Não, não é uma minoria, apesar de ter (infelizmente) alguns "burgueses revolucionários" e "pobres arruaceiros".

Que esses protestos desencadeiem mais uma serie de outras manifestações em prol de outros temas.

A "baderninha" se tornou algo muito maior que isso. Ganhou até repercussão internacional: http://internacional.elpais.com/internacional/2013/06/12/actualidad/1371000636_370579.html

Protesto, via de regra, não tem regra.

A sociedade tem pago caro com os protestos. Mas, é o preço.

Talvez melhore. Talvez não.

Talvez faça valer o ditado "há males que vem para o bem". Talvez não.

Ainda acho que o "discursinho revolucionário anarquista" cansa.

Mas passei a achar - sim, depois de assistir todos os protestos, todos os lados (o que a mídia quer mostrar e o outro lado que - ainda bem - conseguimos ver pela internet) ao "Profissão Repórter" de ontem - que a situação é muito pior do que o ônibus que pego aqui na zona norte e vou ao centro.

Ou então a situação é muito pior do que o trânsito que você invariavelmente pega (com protesto ou não) confortável em seu ar-condicionado e vidros fechados protegidos por insulfilm (ou blindados), parados, sem produtividade alguma e reféns, veja só, de uma polícia truculenta e ineficiente, por vezes mais suspeita que a própria bandidagem. Inclusive nessas manifestações.

Enfim, não é um pedido de desculpas. Tampouco retratação, pois acredito que não tenha ofendido ninguém. Aliás, é preciso tomar cuidado pois qualquer coisa hoje pode ser ofensa.

Não é falta de convicção. Aliás, as convicções são quadradas.

Assim como são quadradas as pessoas que acham que "a polícia deve descer chumbo nesse bando de vagabundos".

Tomara que a situação mude para melhor e que os "vagabundos" de hoje se tornem um exemplo (ou algo assim) de mudança de amanhã.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Mexeu no bolso, o bicho pega

O aumento na tarifa de ônibus paulistana em 20 centavos desencadeia uma série de protestos...

foto: Thiago Queiros/Estadão
...protestos de uma juventude imbecil e inconsequente. As imagens mostram uma Avenida Paulista destruída – claro, parte por culpa da ineficiência e truculência da polícia militar – por “estudantes” que se dizem contra o aumento de 0,20 na passagem de ônibus. A “revolta” não passa de um bando de estudantes que muito provavelmente tem a condução (e mensalidade da faculdade) paga pelos pais. Muito provavelmente estudantes que pagam o olho da cara em festas e baladas. Muito provavelmente são estudantes que, àvidos por uma baderna, se jogam em qualquer manifestação, legitimando-a como justa e por uma boa causa. Mas manifestante que não mostra a cara – como os vários que usaram máscara para se esconder – só mostra que tem vergonha do que faz. E sabe que está errado.

Sabemos que sim, o aumento é um abuso, afinal subiu muito mais que a inflação no período. Sabemos que o serviço prestado não é lá grande coisa, e o problema acaba se estendendo não somente para o transporte público (ônibus/metrô/trem), mas para toda a mobilidade urbana (vias, avenidas). Sabemos que os salários não aumentaram na mesma proporção. Sabemos que a polícia é truculenta e é bem provável que tenham feito boa parte dos estragos. Mas nada disso legitima um protesto por 0,20. Sim, pode fazer falta para quem realmente precisa e mora nas periferias. Gente que mora na periferia, mas ainda assim compra tênis de quase mil reais e não reclama por isso. Estudantes que pagam meia tarifa, o que na prática resulta em um aumento de dez centavos. 

Manifestações truculentas podem garantir alguma mudança? Não. É só ver as diversas que ocorreram na Primavera Árabe. Muito barulho e poucos resultados. A diferença é que lá, sim, é por algo decente: a má política praticada naqueles países. Vejamos: no Chile, há um tempo atrás, manifestantes entraram em confronto com a polícia protestando por melhoras na educação. Veja bem, na educação. Ninguém aqui se mexe para protestar contra a má educação oferecida nas universidades públicas e mais ainda nas particulares. Mas quando mexe no bolso... Aí o bicho pega.

Acho que tudo não passa de uma minoria que se acha prejudicada e no direito de “parar” a cidade, mas uma minoria não só com o tipo “burguês revolucionário”, tão presente hoje em dia nas universidades. Mas do pobre anarquista e arruaceiro que adora uma baderna. Aliás, está virando moda: tudo vira protesto: a favor da família, contra o aborto, contra o aumento da passagem... Mas contra a corrupção, contra os maus serviços prestados em diversas áreas da sociedade, nada. Quando mexe no bolso, o bicho pega.

No fim do ano passado, em Portugal, uma manifestação de alguns milhares foi marcada por algo impensável em um protesto: o silêncio dos manifestantes. Contra o aumento dos impostos, contra os cortes nos salários e contra o desemprego, numa crise que atinge toda a Europa. Tudo no mais absoluto silêncio. Talvez não tenha adiantado. Mas ficou muito mais marcada do que qualquer “baderninha” causada por estudantes “revolucionários”.


Esse discurso “revolucionário anarquista” cansa.

terça-feira, 28 de maio de 2013

“A Menina sem Qualidades” e o sopro de renovação da MTV

Nova aposta da MTV, “A Menina sem Qualidades” é uma luz ao que a dramaturgia brasileira pode oferecer.

E quem diria que, numa MTV em crise financeira e criativa (já que suas maiores estrelas se espalharam por aí), apareceu uma das melhores produções seriadas já vistas na tv aberta? “A Menina sem Qualidades” tem qualidades que vão desde a menina do título, Ana, vivida por Bianca Comparato (a Betânia de “Avenida Brasil”), passando pela trilha sonora e pelo restante do elenco.

Foi uma opção arriscada – e um tanto errada – da MTV em exibir primeiro o making-of e depois 30 minutos ininterruptos da trilha sonora com um relógio em contagem regressiva na tela. Deveria ser o contrário, pois quem zapeava pela tv poderia achar que era um problema ou que realmente a MTV estava “mal das pernas” por não exibir absolutamente nada. A serie era anunciada para as 23h e a MTV seguiu a cartilha da tv brasileira ao adiar um programa por mais um tempo para – supostamente – segurar a audiência. Mas foi uma escolha corajosa mostrar os bastidores antes de uma produção. Um aquecimento, minado pelos 30 minutos ditos acima.

A historia gira em torno de Ana (Bianca Comparato), uma garota de 16 anos, retraída, tímida e que acaba de chegar a um novo colégio de classe média alta. Lá conhece Alex (Rodrigo Pandolfo), um estudante popular, mas manipulador e acha que a vida é um grande jogo. Junto com o professor Tristán (Javier Drolas), os dois embarcam – ela, por estar apaixonada e Alex por pura diversão – num jogo psicológico com o professor e a situação foge do controle. É um universo dos jovens de hoje, presos em celulares e computadores, com dilemas e problemas que podem causar sérias e tristes sequelas.

Adaptação de um romance alemão que já ganhou versão para o teatro e um futuro filme, “A Menina sem Qualidades” é dirigida por Felipe Hirsch, conhecido diretor de teatro. Apesar de a MTV divulgar que esta é a sua primeira minissérie, a emissora já tinha apostado no formato (“Descolados”, 2009) em parceria com a Mixer. Desta vez, é uma parceria com os Estúdios Quanta.

A serie surpreende por tocar em assuntos vistos com receio em outras produções. Devemos considerar que a MTV é feita para um público segmentado, diferente daquele (mal) acostumado com sitcoms e novelas meia boca que vimos por aí. A história é forte, põe o dedo na ferida de uma geração que tem jovens que passam pelos mesmos problemas e nem de longe – mas a séculos de distância – de “Malhação” que, por teoria, deveria tratar dos mesmos temas (guardadas as devidas proporções de horários).

Bianca Comparato, com 27 anos, passa por uma menina frágil tranquilamente. O recato da garota imprimido na atuação da atriz confere uma sensibilidade sem igual àquela frágil figura. A fotografia é cinza, pastel, melancólica como a personagem. Não há grandes surtos de criatividade em enquadramentos ou iluminação, mas a serie mantém a linguagem já manjada da câmera na mão e longos takes contemplativos aliados a uma trilha sonora incrível. Mas é competente. O que foi visto no making-of é brilhante.

A espera de uma hora (making-of + trilha sonora) compensou os 25 minutos de arte da serie. A história é tocante, o ritmo imprimido pela direção nos faz fixar os olhos na tela e nos faz ficar ávidos por mais episódios. Não lembro de ter visto algo do tipo na tv aberta. Infelizmente – ou felizmente – caberá à MTV seguir essa linha, já que outras series estão programadas.

Demorará muito para que as grandes emissoras “abram a cabeça” para exibir séries desse tipo.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Afinal, quem quer ser o presidente da república?

A disputa eleitoral para a presidência em 2014 ganha contornos cada vez mais indefinidos

Cada um se arma como pode e no meio de tudo isso a indefinição de vários nomes é pauta de todas as seções de política de sites, jornais e revistas. O tucano Aécio Neves, recém empossado presidente do PSDB, já aparece em propagandas “convocando” o povo brasileiro a fomentar “opiniões” e contribuir com o partido. Uma máscara para angariar eleitores. Afinal, é mais do que sabido que Aécio – o prodigioso ex-governador de Minas Gerais – será o candidato tucano à presidência. José Serra, aquele que perdeu inúmeras disputas, segue no limbo, sem definição alguma: Geraldo Alckmin, governador de São Paulo, disse que Serrá “não ficará de fora da disputa em 2014”. Só não sabe se como presidente (o que é uma balela), senador ou na pior das hipóteses, uma derradeira cadeira na Câmara dos Deputados. Ou ainda, sair do partido que o alçou aos holofotes da política nacional e partir para algum dos inúmeros partidos criados recentemente.

A oposição, como podemos ver, é fraca, desunida (“deixa o Serra pra lá”) e confusa. Não há um programa que consiga fazer frente à ideologia situacionista. No PSDB, temos uma aliança prodigiosa: FHC e o senador Aloysio Nunes apoiam Aécio Neves, com Alckmin fazendo coro. Aqui, sim, uma união. Se colherá frutos, impossível dizer. O PSDB parte para o ataque com a mesma bandeira social que consagrou o PT quando este chegou ao poder. A entrevista de Aécio Neves à IstoÉ deixou claro que é a intenção tucana aproximar-se das camadas mais pobres da população e quer desmanchar a imagem de partido “elitista”.

Enquanto isso, a situação aparece tão desunida quanto a oposição. PT e PMDB, partido da presidente Dilma e do vice Michel Temer, cada vez mais batem de frente em várias disputas: a MP dos Portos é um exemplo recente. O PMDB, um partido que nada conforme a corrente, se mostra contrário à várias opções do PT de Dilma, causando um desgaste cada vez maior num ano que precede a disputa eleitoral. E a tendência é piorar.

Outro partido da base aliada, o PSB de Eduardo Campos já avisou: vai entrar na disputa presidencial. O governador de Pernambuco já avisou aos aliados: “o PT e o governo tentam evitar minha candidatura”. Dentro do partido, o nome de Campos não é unanimidade. Alguns governadores já declaram apoio à reeleição de Dilma.

Os três principais candidatos – ou supostos candidatos – já lançaram mão de ações na tv, com comerciais exaltando os feitos na gestão (Eduardo Campos), comemorando os dez anos do partido no poder (Dilma, com o apoio do inseparável Lula) e da “novidade” (Aécio como presidente do PSDB). Porém, o noticiário não deixa dúvidas: é a dança das cadeiras, em que todos podem cair no chão. 

quarta-feira, 22 de maio de 2013

"Dona Xepa" estreia com 9 pontos e tranquiliza Record


A estreia de "Dona Xepa" na Record mostra que a emissora está no caminho certo – mas tem coisas que só o “estilo Record de fazer novelas” pode proporcionar.

A história da feirante que faz de tudo pelos filhos já teve três versões: a peça de teatro original de Pedro Bloch, um filme em 1959, a primeira versão da novela em 1977 na Globo (escrita por Gilberto Braga) e, agora, a quarta versão pela Record. Não é um remake da novela global e sim uma nova versão, inspirada na peça de teatro. A emissora não economizou nas propagandas (com uma divulgação impagável de Marcelo Rezende no policialesco Cidade Alerta:. http://www.youtube.com/watch?v=bnlyBK-0ta0). Depois do fiasco “Máscaras”, “Balacobaco” tinha a missão de fazer voltar os dois dígitos de média. Não conseguiu – terminou com uma média de 7 pontos. “Dona Xepa” tem essa dura missão de voltar pelo menos próximo aos 12 pontos de “Vidas em Jogo”.

Ângela Leal, além do nome da personagem-título, carrega a novela – e a feira – nas costas. a Dona Xepa garante boas risadas com um sotaque que parece feito para a atriz. Dá pena ver uma atriz como esta contracenando com atores tão fracos. Aliás, muitos dos que estão lá vieram da Rede Globo. E parece que desaprenderam tudo...

A produção, ainda que popular, não é popularesca como “Balacobaco”. A Record mantém a ousadia de deixar uma novela com os dois pés no humor num horário considerado tarde para este tipo de produção. O que é ótimo, é uma opção a mais para combater à "nova-velha" grade da Rede Globo no horário.

Ainda assim, “Dona Xepa” tem exageros típicos das novelas da emissora: trilhas sonoras e incidentais mal escolhidas ou mal colocadas em cenas aleatórias (quando Robertha Portella, interpretando Dafne, a mulher-fruta, toca a música "Mulher Brasileira": mais clichê, impossível), slow motion em sequências que seria totalmente dispensável (parece que é para ganhar tempo), atores carregando nos exageros (Luiza Thomé interpretando Meg Pantaleão está num tom muito acima e Márcio Kieling avacalha na canastrice), atores que saíram de “Malhação” (mas a “Malhação não saiu deles): Bia Montez, Giuseppe Oristânio e o próprio Márcio Kieling. Do núcleo principal, Thaís Fersoza (Rosália, a filha ambiciosa) se garante muito bem, ao contrário de um inexperiente Arthur Aguiar (o filho estudioso, mas que tem vergonha da mãe por ela ser feirante, assim como Rosália).

“Dona Xepa” é uma aposta da Record em novelas com número reduzido de capítulos, o que é uma surpresa vindo da emissora. Enquanto algumas se arrastam por mais de um ano até, esta tem a missão de fechar com 90 capítulos, aproximadamente. Mas o autor Gustavo Reiz já disse que, dependendo da audiência, pode ser “espichada”. Ivan Zettel, experiente diretor de tv, assina a direção geral da novela, que consegue se sair bem. Divertida, popular (mas não popularesca), bem feita (fotografia sem maiores elogios, é competente), “Dona Xepa” tem tudo para agradar um público que prefere um tipo mais leve de telenovela. É uma melhora em relação à “Balacobaco”, mas ainda não chega aos níveis de “Cidadão Brasileiro”, uma das melhores produções da Record – que Zettel dirigiu, aliás.

Torcer para que a emissora não brinque com o horário. A prova é que “Balacobaco” não sofreu desse mal e aumentou os números de audiência. "Dona Xepa" estreou com 9 pontos de média e 10 de pico, o que é um avanço. Mas 7 pontos de média geral (como "Balacobaco") ainda não é o bastante para uma emissora que se diz “tv de primeira”.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

"Amor à Vida" mostra São Paulo do jeito que ela é. E consegue


Enquanto “Salve Jorge” se arrastou por sete meses sem grandes reviravoltas, a estreia de “Amor à Vida” trouxe, em pouco mais de uma hora e meia, muito mais do que a turma de Gloria Perez.

O começo acima pode parecer exagerado, mas ficou próximo disso. A estreia de Walcyr Carrasco no horário das 9 começou muito bem. O primeiro capítulo mostrou-se ágil, bem dirigido, com trilha e fotografia voltando aos bons tempos de “Avenida Brasil” e abandonados em “Salve Jorge”. As características de Walcyr Carrasco estão lá: um vilão marcante (Félix – interpretado por Mateus Solano – já mostrou a que veio e muito me lembrou as vilanias e ironias de Cristina – Flávia Alessandra em “Alma Gêmea”, claro que cada um à sua época. Outros, mais saudosistas, dizem que Félix é uma versão de Carminha de “Avenida Brasil”. Não por acaso, Félix é bissexual e mostrou um arsenal de frases de efeito), uma história carregada no drama: Paloma (Paolla Oliveira) é inconsequente, sofredora, abandona a família, é rejeitada pela mãe, tem um irmão invejoso, tem um parto num local imundo, etc, etc, etc e um núcleo de humor em torno de uma família (como não lembrar das famílias de “Chocolate com Pimenta” e “O Cravo e a Rosa”?).

Destaco duas cenas de um capítulo longo: vagando por São Paulo, Ninho (que veio para o Brasil com a ajuda de Félix depois de ser preso por tráfico) e Paloma discutem em um bar, numa das melhores fotografias da novela. Ele vai embora e Paloma tem a filha que espera dele num banheiro imundo, num parto realizado com a ajuda de Márcia (Elisabeth Savalla). Aliás, Paloma escondeu da família que estava grávida, mesmo vivendo sob o mesmo teto. Um tanto fantasioso. No hospital San Magno, onde boa parte da trama vai se passar, a cena do parto e morte de Luana (Gabriela Duarte) foi emocionante, com trilha na medida e muito bem gravada. Além disso, as cenas em Machu Picchu no início da novela também foram bem tratadas, com o conflito se estabelecendo logo nos primeiros minutos: a mãe (Pilar, Suzana Vieira) rejeita a filha, o pai (César, Antonio Fagundes) apoia a filha e causa inveja em Félix, que quer tirá-la do caminho a todo custo e Edith (Bárbara Paz), a esposa complacente com Félix.


A fotografia de “Amor à Vida” é limpa, sem exageros, mas há o retorno de uma câmera na mão constante, ágil, nervosa. Esqueçam as grandes tomadas de paisagens e coisas convencionais. É uma fotografia moderna, com estilo (sim, com um pé nos filmes e seriados). A trilha, que vai desde a música “Maravida”, de Gonzaguinha interpretada toscamente por Daniel na abertura até Charlie Brown Jr, reflete uma São Paulo pouco vista antes na tv: do jeito que ela é. Junto à fotografia e direção de arte, a cidade é mostrada sem exageros ou caricaturas: ali estão os bares e botecos sujos, as prostitutas da Augusta, o centro vazio mas ao mesmo tempo belo, as luzes de neon nos bares... Nada de “cidade cinzenta” ou “contemporânea” e “urbana” (como visto em “Sangue Bom, a das 7). Em “Amor à Vida”, São Paulo se materializa na tela. Outro recurso interessante foi o uso de uma câmera acoplada a Juliano Cazarré quando o personagem Ninho está no aeroporto. O enquadramento permitiu captar todo o nervosismo do personagem.
Do elenco, Suzana Vieira e sua Pilar são mais do mesmo que a atriz já fez na tv: uma mulher rica e impiedosa – lembra a Branca de “Por Amor”. Mateus Solano (Félix) consegue provocar ódio (como quando abandona a filha de Paloma no lixo) e riso (ao filho, Jonatan: “Meu dia está lotado para criança! Se quiser, agenda!” ou à esposa: “Eu salguei a Santa Ceia, só pode ser!” ou à tia: “Tá chamando seu irmão de touro, vão achar que você é a vaca!” ou pior, quando chega no bar que Paloma teve a filha: “Brega!”). No mais, nada de mais. Antonio Fagundes, Malvino Salvador, Juliano Cazarré, Bárbara Paz e Paola Oliveira não comprometem, mas não se destacam. O primeiro capítulo ficou inteiramente focado nesse núcleo, com apenas uma cena da família de Bruno. Uma família grande e tipicamente paulistana: Eliane Giardini volta a viver uma matriarca (Ordália, que lembra um pouco a Muricy de “Avenida Brasil, mas bem mais branda), e o pai de Bruno, Fulvio Stefanini (Denizard), que carrega no sotaque paulista, meu!


Walcyr Carrasco ainda mantém características no seu texto que incomodam: às vezes são explicativos demais ou às vezes o recurso de “falar o pensamento” não se faz mais necessário, quando Bruno encontra a criança abandonada por Félix no lixo e exclana: “Deus me deu uma nova chance!”, forçando a barra. Mas a direção de Wolf Maya é competente, dinâmica: as passagens de tempo foram implícitas pelas cenas (quando mostrou Paloma grávida, ora experimentando roupas, ora fazendo ultrassom), a fotografia e a trilha são um grande acerto e a trama é verossímil numa história que não tem essa pretensão  Ao contrário de “Salve Jorge” que pedia uma trama realista (morro do Alemão e tráfico de pessoas), mas totalmente mal concebida.

“Amor à Vida” estreou com 35 pontos (não consolidados) e repete a estreia de “Salve Jorge”, mas ainda inferior a “Avenida Brasil” (37) e “Fina Estampa” (41). O nome pode remeter a qualquer novela tosca do Manoel Carlos. Mas Carrasco coloca todo o arsenal que consagrou suas novelas (só às 6, pois as das 7 foram bem fracas) e aliada à direção de Wolf Maya, “Amor à Vida” tem tudo para agradar. Menos a abertura, que apesar de contar com o desenhista americano Ryan Woodward (de “Os Vingadores”), é toscamente interpretada por Daniel, mesmo que tenha tudo a ver com o título (De amar, e amar e amar... Vida, vida, vida). 

domingo, 19 de maio de 2013

É preciso uma virada na Virada Cultural


As mortes e arrastões na Virada Cultural só mostram que a cidade de São Paulo ainda não está preparada para um evento desse porte. Ou então chegou a hora de rever o que deve ser entendido por uma Virada Cultural.

Obviamente, é importante frisar: são fatos isolados. Mas a cada ano crescem os relatos de quem viu arrastões, brigas, etc. As mortes e feridos constatados são poucos diante dos inúmeros roubos que acontecem em vários locais. Há ainda aqueles cidadãos que nem boletim de ocorrência fazem, diante da inércia da polícia e da falta de paciência em realizar um processo tão burocrático – e que não resolverá nada, só vai virar estatística. Discussões partidárias, como a Folha de S. Paulo quer fazer, não cabem aqui.

Já fui no evento em 2009, quando a virada estava em sua 5ª edição. Não vi nada de anormal, nenhuma briga, muito menos arrastão. Aliás, foi um dos eventos mais legais que já fui. De lá pra cá muita coisa mudou, principalmente a frequência de público. Não há como negar: a visibilidade aumenta, um prato cheio para pessoas que não estão ali para ver uma atração.

É preciso rever o conceito da Virada Cultural, aparentemente esgotado. É preciso descentralizar. É preciso rever o conceito de cultura, até porque ter como atração Rita Cadillac não me parece algo “cultural” (mas “cultura” é algo para todos, tem quem goste: lá vem a bandeira do politicamente correto contra o preconceito). A cidade de São Paulo é muito grande e tem muitos espaços para eventos. A concentração das atrações no centro é prejudicial, pois a concentração de público e o risco são maiores. Logisticamente, é muito mais fácil: opções de transporte público não faltam e é muito mais barato aglutinar toda uma estrutura (palcos, iluminação, segurança) em uma única região. As outras regiões ficam restritas a SESCs (com atrações muito mais qualificadas). E só. E o Anhembi? E o Ibirapuera?

É preciso, acima de tudo, que o cidadão paulistano faça valer todos os impostos pagos. Afinal, a ilusão de que o evento é “gratuito” é fácil de ser vendida: grandes cantores, “de graça”. Balela. Tudo ali foi tirado do nosso bolso. Ainda assim, os grandes cantores e as peças teatrais, danças, e artes que ali se apresentam não merecem ter seu nome vinculado a um evento desorganizado e perigoso.

É um direito nosso exigir mais qualidade – de atrações e segurança – de um evento que propõe levar cultura a cada vez mais pessoas.